|cedo|

Na travessia¹ das veredas do grande sertão, Rosa, por Tatarana (antes Riobaldo, depois Urutu-branco), encontrou cem formas de tratar o Diabo². Lembro de nem meia dúzia para dizer Deus – não tomei nota.

Nonada³ não.

 

|soube|

De memória coloquei assim: cada homem carrega seu barco no peito.

Enquanto o que houve foi uma mistura de dois Couto:

1º .“-A minha raça sou eu mesmo. A pessoa é uma humanidade individual.

Cada homem é uma raça.” Dele próprio, no sotaque de João Passarinheiro.

Com: 2º . “O barco de cada um está no seu próprio peito” de provérbio macuá, em aspas pré conto.

 

|soube,outro|

Ainda em Couto, em outra dessas confusões (essa já tratando de Joana), eu disse:

Descendemos – todos – dos que hão de vir.

Mas o de Mia foi assim:  “Descendo, sim, dos que hão de vir”

Esse reconheço que melhorei pouco e creio que em junho (ou julho) já estará na janela de Joana – foi maio.

 

|prefácio|

“Assim é que elas foram feitas (todas as coisas) – sem nome.

Depois é que veio a harpa e a fêmea em pé.”

                                                                      - é Barros.

 

|memória|

Foi o que ouvi Carlos, pela voz de Gullar, me dizer: - “Como esses primitivos que carregam por toda parte o maxilar inferior de seus mortos, assim te levo comigo, tarde de maio.”

 

|tarde|

Contaram-me como de Nassar, mas depois, por Hesse, soube ser de Novalis:

“Para onde estamos realmente indo? Para casa, sempre para casa.”

                                (talvez em premonição à dúvida de Paz: “Ouvir-se: ir-se. Para onde?”)

 

|noite|

Creio que ouvi Bethânia cantar: “Todo cais é uma saudade de pedra”, mas Pessoa, em Campos, escreveu: “Todo o cais é uma saudade de pedra”    ......                                                                      Penso que o artigo, ao reduzir a área coberta pela saudade, amplie-a.

 

|além|

A cítara é um instrumento musical composto de 2 camadas de cordas sobrepostas de forma muito aproximada, mas sem se tocar. Ao citarista cabe sensibilizar apenas a camada superior, composta pelas cordas de execução. No momento em que ele produz um tom que corresponde à natureza de alguma corda de ressonância, na camada abaixo, ela reverbera e gera um som diferente.    = As cordas de ressonância vibram por simpatia.

 

|:háuma,⁴|

ana, helena, lea, lia, bia, bel, betina, bethânia, mia, sonia, catarina, clarice, alice, rosa, branca, íris, lilith, lilian, eva, medea, medusa, iansã, kali, geni, ceci, cecília, iracema, gabriela, capitu, lolita, emma, diadorim, julieta, ofélia, macabea, teresa, tristessa, nara, marina, maria, madalena, naya, nina, janaina, durga: joana.

                                   

|verso|

Parece-me certo dizer que cada homem pode fundar sua própria religião, esculpir seus deuses, adorá-los, adorná-los e postá-los ao altar ou aos correios para guardar/espalhar a palavra. Cada homem pode criar seu idioma + mandamentos + leis e ensiná-las às suas Joanas, ou por certo deixar ao tempo, ao peito, no relento, ao silêncio.

Que cada um invente seus modos de jogar para descobrir seu acaso.

Que cada homem amarre seus colares com os cacos que encontrar e pendure em sua Bel.

Que cada um costure seu manto e corra trace seu risco. Tenho fé, que só assim

                                                                                                                    travesseremos. 

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¹ Ato ou efeito de atravessar uma região, um continente, um mar etc. // Longo trecho de caminho ermo. // Palavra muito usada em Grande Sertão: Veredas com o sentido simbólico de vida, transposição de etapas. É a última palavra do romance, que é uma travessia pelos caminhos da imaginação, da reflexão, da arte.

 

² o Que-Diga, o Capiroto, o Rincha-Mãe, o Sangue-d’Outro , o Muitos Beiços, o Rasga-Em-Baixo, o Fancho-Bode, o Treciziano, o Azinhavre, o Hermógenes, o Tal, o Arrenegado, o Cão, o Caramulhão, o Indivíduo, o Galhardo, o Pé-de-Pato, o Sujo, o Homem, o Tisnado, o Côxo, o Temba, o Azarape, o Coisa-Ruim, o Mafarro, o Pé-Preto, o Canho, o Duba-Dubá, o Rapaz, o Tristonho, o Não-Sei-Que-Diga, O-Que-Nunca-Ri, o Sem-Gracejos, o Cujo, o Crespo, o Demo, o Dê, o Outro, o Figura, o Morcegão, o Tunes, o Cramulhão, o Dêbo, o Carôcho, o Mal-Encarado, O-Que-Não-Existe, o Grão-Tinhoso, o Cão-Miúdo, o Que-Não-Fala, o Que-Não-Ri, o Muito-Sério, o Cão-Extremo, o Coisa-Má, o Maligno, o Sempre-Sério, o Pai-Da-Mentira, o Bode-Preto, o Xú, o Dado, o Danado, o Lúcifer, o Satanáz, o Dos-Fins, o Austero, o Severo-Mór, o Drão, o Demonião, o Demônio, o Capeta, o Demônio-Mestre, o Tranjão, o Tibes, o Tentador, o Anhangão, o Passopreto, o Diôgo, o Dianho, o Dião, o Rei-Diabo, o Satanão, o Aquele, o Barzebu, o Berzebu, o Belzebu, o Bute, o Ele, o Cabrobó, o Careca, o Danador, o Das Trevas, o Diá, o Mal Encarado, o O, o Ocultador, o Que-Não-Há, o Solto, o Tendeiro, o Tentador, O-Que-Nunca-Se-Ri. 

 

³ Nada; coisa sem importância. // Forma arcaica da aglutinação de non + nada. Talvez o mais famoso neologismo criado por Guimarães Rosa. É a palavra inicial de GSV, constituindo sozinha a primeira frase e a primeira estranheza e está também no último parágrafo. “... indicação de que o mundo de GSV estaria, numa imitação da Criação Divina, sendo criado ex–nihilo”

 

⁴ substantivo feminino // neologismo, deco adjiman, 2017 // 1. Sinônimo de alma: princípio vital; vida. 1b. Substância autônoma ou parcialmente autônoma em relação à materialidade do corpo. 1c. Ser humano; pessoa. 1d. Expressão, animação, vigor, vida. Condição primacial; essência. Ânimo, energia, coragem. 2. Indicativo de presença feminina no tempo atual e no espaço próximo. 3. Uma palavra de amor. 4. Um paladar. 5. Sinônimo de emoriô: ligação, elo, união. 6. Feminino de Ôm, ou Aum, o mais significativo e poderoso mantra da tradição hindu, que representa o sopro presente na criação do universo. 7.  Uma aprendizagem. 8.  ou O Livro dos Prazeres. 9. A pontuação que acompanha o vocábulo amplia seu significado, sendo o  “:” no início da palavra indicação de que ela é uma conclusão de tudo que a antecede e a “,” ao final indicação que há um porvir, que é desconhecido mas dependente dela. 10. Relativo à Joana.

 

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Rosa – João Guimarães Rosa, escritor brasileiro. 1908-1967 // Tatarana (Riobaldo, Urutu-Branco) – Personagem do romance Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa // Couto – Mia Couto, escritor moçambicano. 1955- // João Passarinheiro – Personagem do conto Vendedor de Pássaros, de Mia Couto // Joana – Minha filha,. 2017 -  // Mia – Mia Couto, escritor moçambicano. 1955 – // Barros – Manoel de Barros, poeta brasileiro. 1916-2014 // Carlos – Carlos Drummond de Andrade, poeta brasileiro. 1902-1987 // Gullar – Ferreira Gullar, poeta brasileiro. 1930-2016 // Nassar – Raduan Nassar, escritor brasileiro. 1935- // Hesse – Hermann Hesse, escritor alemão 1877-1962 // Novalis – poeta e filosofo alemão. 1772-1801 // Paz – Octavio Paz, escritor mexicano. 1914-1998 // Bethânia – Maria Bethânia, cantora brasileira. 1946- // Pessoa – Fernando Pessoa, escritor português, 1888-1935 // Campos – Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa. // Bel – Isabel Pimenta Bueno Adjiman, estilista brasileira (a que amo). 1985 - .

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