(espreita)   __horizonte__    desvio,deriva: pouso

 

 

|deriva|

 

Chovia muito quando saí para a minha primeira deriva em Boiçucanga. Choveu muito durante todos os dias em que estive lá, quase todo dia e quase por todo o dia, durante os 22 dias. Lembrando agora, creio que essa primeira deriva foi a única em que estive sozinho por todo o tempo.  Por isso e pelo fato de ter sido a primeira foi a mais intensa e reveladora. Todas as outras 17 foram contaminadas por ela. A proposta que me coloquei foi baseada no texto “O Funcionamento da Atenção no Trabalho do Cartógrafo” da pesquisadora Virgínia Kastrup e que pode ser resumido como um deslocamento físico, sem destino, rota ou objetivo pré-definido que se inicia com um estado de atenção flutuante e igualmente distribuída por todos os elementos até que essa atenção, tocada pelo acaso, vai se afunilando até algum elemento específico que então torna-se o “objeto” de estudo. Nessa primeira deriva percebi a enorme semelhança desse exercício com a meditação, já que ambos apresentam como principal desafio inicial o processo mental de afastar pensamentos. A deriva, entretanto, por envolver um deslocamento físico oferece diversos e sempre novos focos para a concentração. Esse meu primeiro caminhar foi emblemático por ter disparado diversos gatilhos e revelado algumas descobertas, mesmo tendo sido feito em um caminho por onde eu já havia passado diversas vezes antes e mesmo sendo um caminhar que não permitia grandes desvios (era uma trilha na mata atlântica), foi como se eu me colocasse em um estado de atenção capaz de deixar de lado minhas certezas prévias e, assim, me abrir mais para novos conhecimentos. Em uma frase que poderia estar no rodapé de livro de autoajuda, posso dizer que esse processo me fez ver de forma reveladora até os caminhos já conhecidos. Na descrição de Virgínia sobre o afunilamento da atenção do cartógrafo ela cita quatro fases: rastreio, toque, pouso e reconhecimento atento. Para descrever o toque há a metáfora de um ser, talvez uma ameba, que rasteja com o corpo todo tocando uma superfície lisa e então alguma pequena saliência toca a sua atenção, na minha primeira deriva foi o toque das folhas molhadas no meu pé descalço que desviou o meu foco. Desde a primeira e em cada deriva, produzi um “livro” sobre o “objeto” de estudo com texto e elementos recolhidos. A união desse material recebe o nome de “O Livro dos Livros de Deriva”. Durante a residência abri 2 outras frentes de deriva, uma que resultou em um grande desenho de diversos híbridos entre gráfico e mapa, em uma tentativa real de cartografia dos espaços que percorri tanto no entorno com alguns internos. Esse grande conjunto de desenhos, chamado “traço” foi feito em uma espécie de pergaminho que se desenrola tendo uma linha (do horizonte) como fio condutor e de costura entre eles. A outra deriva ocorreu em paralelo com a leitura do livro “As cidades invisíveis” de Italo Calvino com o qual tive o primeiro contato durante a residência. No livro Calvino descreve cidades inventadas e todas elas possuem nomes femininos e diversas características que poderiam também descrever uma mulher. Durante minhas caminhadas recolhi pequenas ruínas e durante minha leitura recolhi pequenos trechos de Calvino, o trabalho “pois, que todas as primeiras cidades eram fêmeas” é o encontro disso.

 

|desvio|

 

Chovia muito enquanto terminávamos o forno de tijolos sobre o jardim de Lourdina. Choveu muito durante todos os dias em que estive lá, quase todo dia e quase por todo o dia, durante os 22 dias. Lembrando agora, entendo que empilhar os tijolos com os portugueses nesses primeiros dois dias da residência, com sol, chuva, fogo e barro, falando sobre barro, fogo, água, deuses e tanto foi como escrever o prefácio da minha estadia: tempo, equilíbrio/balanço, silêncio, descoberta. Os tijolos que sobraram caminharam para minhas produções, assim como diversos pedaços de madeira que salvei do fogo. Conversando sobre arcos com o português de Cunha lembrei das minhas cunhas e, enfim depois de tanta dança, elas encontraram forma e então tantas outras vieram. Desvios. A cunha como elemento de desvio da linha. Assim surgiram as séries “cunha(s) – conjunto de exemplos” , “cunha de 2” , “cunha de 3”, “encaixes” o trabalho “arco pleno” e outros da instalação “desvios” .

 

 

| horizonte |

 

Todo desenho, por mais abstrato, precisa de um parâmetro. Todo texto caminha sobre um risco. Nas remadas que faço em alto ou baixo mar, ao longe, há o limite que é ao mesmo tempo o além e o porto. Bandeira questionou a importância da linha do horizonte para quem mira o beco. O beco seria mais escuro, podemos sempre fechar os olhos e ver: o além e o porto. De uma forma ou de outra a linha do horizonte está em todos os trabalhos que fiz na residência, como linha ou como horizonte, ou como porto ou como risco, parâmetro ou como além. Mais evidente na série “horizonte entre pe(r)d(r)as” e “aprisionamentos” e nos trabalhos “horizonte em riscos” e “hádeuses, miragem”.

 

| pouso |

 

“O pouso não deve ser entendido como um parada do movimento, mas como uma parada no movimento.” (Virgínia Kastruo). Pouso e sigo, tenho como pouso constante o chão e o mar, não só como superfície, mas como palavra. Descobri o feminino dessas palavras, a mar para o oceano que faz mais sentido e a chã para o que pisamos. Desse pouso surgiu o trabalho “quero esculpir uma canoa só para colocar o nome chão como batismo em sua proa” que é ainda uma ideia de uma canoa feita de tijolos tendo a peça de garapeira em que esculpi a palavra chã na proa e a frase “o mar é sujeito fêmea: a mar, portanto”, como aquelas frases de caminhão, na popa onde esperamos vento.   

 

| espreita |

 

observar atenta e ocultamente, espiar, espionar, vigiar, olhar atentamente, perscrutar, esquadrinhar, intuir, prever, adivinhar. procurar, esperar, aguardar, estudar, analisar, dissecar. É sempre um início.

 

 

 

Boiçucanga, outubro 2018

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