carta aberta aos meus

 

ps ou antes

 

por tanto, passei a sentir uma enorme gratidão e às vezes tenho um tipo de vazio por não saber se um dia conseguirei expressar o tamanho sem ter que dizer um milhão de vezes obrigado, o que seria repetitivo e tomaria muito tempo. Esse vazio me preenche também por não saber ainda como retribuir, mas parece ser um bom desafio passar a vida tentando.

O mais gostoso é que tudo foi feito com prazer e gerou ainda mais prazer em quem fez, isso tenho certeza. Já escrevi duas cartas antes dessa, a primeira ao sujeito que escorreu a melodia que preencheu o jardim e a segunda para a moça que costurou a embalagem branca do melhor presente que a vida me deu. Nas duas cartas comecei dizendo assim:

“te escrevo por um motivo simples e grande, mais do que agradecer, eu senti vontade de dividir um sentimento com algumas pessoas que fizeram aquela tarde ter  doses a mais de emoção do que eu estava esperando. Me considero um cara muito pouco tradicional e confesso que até pouco tempo me estranhava no papel de noivo engravatado que espera a mulher no altar ... mas, a mistura de algumas pessoas com boas ideias, outras com muito talento, um lugar perfeito e uma luz mágica deixaram aquela tarde com o efeito do verso que citei do Drummond no dia: pendurada no meu pescoço como um colar feito dos antepassados. É incrível a sensação de ser surpreendido por um momento que eu vinha antecipando e preparando há tanto tempo, e isso aconteceu. E de tal forma que lembrando daquele dia eu tenho uma alegria por aquela nem 1 hora de cerimônia ainda maior do que por toda a diversão e êxtase da festa (que já é gigante)...”

agora sim, aos meus, também assim:

 

imagine uma montanha russa, a mais assustadora (no bom sentido que é para uma montanha russa ser assustadora) que dura quase 2 horas sem perder o embalo e acaba em um penhasco. Na beira o carro breca e te ejeta no ar, e então você cai por outras 8 horas. Queda livre, vento na cara. Você quase sente medo, mas logo percebe que esta com o paraquedas, então começa a aprender a voar. Imagine a adrenalina que estaria correndo por suas veias, mas troque-a por um tipo de emoção que mistura amor e alegria. Foi isso, a montanha russa na cerimônia e a queda livre da festa. Todos me disseram que passa rápido, e é verdade, mas não me avisaram que não era culpa do tempo – o tempo dura o mesmo tanto – a culpa é da intensidade, da voltagem, da eletricidade que é extremamente carregada, do duelo emocional que é ter de decidir entre conversar mais com um amigo que é um irmão, ou com outro que veio de longe, ou dançar com um tio que não se vê faz tempo, ou brindar com a amiga cheia de sorrisos, ou brincar com as crianças na grama, ou com tantos outros que se quer tanto. É muita coisa boa junto com mais coisa muito boa. Pois logo após a queda livre abri o paraquedas e fiz um suave pouso no colo da bel em um deserto cercado por montanhas, umas com neve, outras que sopram fumaça, mas onde todas sabiam brincar com as cores do poer (prefiro poer que poente, mesmo errado) e a cada 3 minutos do crepúsculo um roxo, lilás, rosa ou azul surgia, independente se estávamos no meio de um lago de sal, ou pedalando, ou sorvendo um tinto. E por lá tivemos por 5 noites e a cada manhã tentava contar os grãos de areia do deserto para descobrir se eram mais numerosos que as estrelas que havia contado no escuro e então perdia a conta ou o dia acabava. Foi lá, aliás, que pela primeira vez vi os anéis que saturno usou ao casar e foi numa dessas manhãs, mas ainda antes da aurora, que também pela primeira vez vi uma estrela nascendo, e nasceu pelo cangote do vulcão Láscar, e então acreditei que moramos mesmo numa Terra que gira. Na verdade, pelo silêncio da noite que estou ou por algum qualquer outro motivo, me estendi. Agora corrijo indo direto ao ponto.

 

Alguns dias depois do deserto passamos por uma cidade de beira, que apesar de estar virada para o pacífico me fez lembrar e ter saudade de algo que não vivi (porque ainda não era nascido) e então pensar numa outra punta mais a este onde um casal passou sua lua de mel em meados dos setenta do século passado. Pensei e fiquei com aquilo trancado em mim enquanto andávamos, eu e a minha, pelas ruelas coloridas do vale do paraíso mirando o mar ao fundo e as paredes cheias de artes. Nessa noite, indo provar um sabor na casa de comida da esquina, recebi do chileno a carta para pedir a garrafa e nessa carta, assim como em todas as outras de todos os outros dias que estivemos naquela terra (e cada dia esvaziamos um vidro, ou mais) estava escrito:

 

VINOS

 

O que é natural em uma carta, mas por algum motivo o chileno em questão entregou a carta ao contrário e eu li o que vocês podem ler se virarem essa página de ponta-cabeça.                        O que dessa vez me colocou em um silêncio que fiz questão de dividir com a minha, mas que para tentar explicar aqui qualquer coisa parecida com o que eu senti eu teria de ler o Antologia General de Pablo todo em espanhol e mudar o nome para Neftalí e então para Neruda e morar cem anos em sua casa barco em uma ilha negra e então escrever com sua letra verde, e provavelmente, mesmo assim, não conseguiria. Então deixa, e deixo que cada um entenda como for preciso. Só posso dizer que o brinde foi profundo e o tinto só não foi melhor escolhido do que aproveitado.

 

Sobre o destino, nunca achei que estivesse escrito nos planetas que realmente rodam pelo zodíaco, como me mostrou o francês na noite do deserto, nem que foi ditado por um barbudo que toma vinho na sua nuvem, ou qualquer coisa que seja diferente do fato da água brotar de uma fonte, rolar cachoeira abaixo e um dia, de alguma forma, dar no mar. Sobre as coisas todas da vida prefiro acreditar no acaso, ou como disse um branco com quem conversei em uma sala verde e agora recorto do meu caderninho de notas: Houve então um quando em que o poeta falou do acaso, do acaso que há na vida “não está nada escrito, a vida é uma invenção. Pode dar certo ou pode dar errado: uma sequencia de acasos, um negócio meio aleatório”, seguiu dizendo que a vida vai se formando da relação do acaso com a necessidade e que “fazer poema é fazer do acaso uma necessidade. Assim é o quadro, assim é a arte, assim é a vida. E, a cada palavra no poema, ou a cada escolha na vida, o acaso, ou o imponderável, fica mais restrito”. Também acho que nada está escrito, mas, claro, posso estar errado e a verdade pode ser que está tudo escrito, o que no fundo pouco importa, afinal nunca saberemos a quem pedir o livro para ler o nosso capítulo, portanto nessa tanta confusão que criei não sei bem porque o que posso dizer como obrigado é que foi um prazer dividir aquele 16 com cada um de vocês, que é muito pouco provável que um dia daquele se repita, o que não significa que ele foi o melhor, ai vai do que cada um de nós fizer da mistura do acaso com a necessidade e quando for o caso de um outro momento “queda livre de emoção” chegar, aconselho a todos fazerem o que eu fui aconselhado a fazer, pouco depois dos dezoito e pouco antes do meu primeiro salto de paraquedas: abra bem os olhos, deixe os ouvidos alerta, sinta o cheiro do frio lá de cima, respire sempre fundo, abrace os seus, e ao mergulhar olhe o horizonte, o céu, o chão que se aproxima, a lua, o sol e então olhe tudo de novo, olhe a pessoa ao seu lado direto nos olhos, deixe o vento entrar pela boca e alargar as bochechas, deixe o ar te embalar e aproveite cada sensação, instante e susto por que se por acaso o pano não abrir ou uma pneumonia infecciosa aguda e dupla lhe chegar de surpresa, você não vai ter se arrependido de ter pulado.

Pule sempre e observe sempre o sorriso que está ao lado, se possível nos convide para esse pulo, aliás nos convide também para comer mais mel do sítio,  brincar mais com as crianças, correr cedo na praia, te ajudar a preparar um prato novo (nem que seja só para cortar as cebolas), acompanhar o piar dos pássaros na varanda, andar por umas horas a cavalo, ou no carro novo, ou sem rumo na praia, pegar uma onda, passear com o cão, ou conversar com o gato, discutir futebol, politica, religião, horizontes ou poesia. Estamos ai.

Desculpe, a coisa começou com uma e está terminando em outra.

 

Para que fique ainda mais confuso, deixo um texto que ainda não decidi se é um poema do deserto ou só uma espécie de sequencia fotográfica, só que sem imagem.

quase uma hora perdida

são 17:47 quando sento para mirar o fim do dia

o que penso ser o licancabur esta ainda completamente iluminado

a primeira moita de sua base começa a ser banhada pela sombra do vulcão à sua esquerda

ainda não decidi se ele esta mais marrom ou mais avermelhado, e como demoro, a cor muda

há neve em seu topo, menos do que ontem

outros picos menores mas com mais neve colocam-se ao seus pés e logo lhe tomarão em sombra

agora me decido pelo vermelho, são 17:53

o platô que estende-se à sua direita está completamente tomado pela cor que agora faz uma batalha com o negro da sombra que se aproxima do outro lado

mais à direita, os outros vulcões ganham roxo

mas seria melhor não dizer sobre as cores

são 17:58 e agora vejo que há fumaça brotando do láscar, como sempre há

ele está em seu último gole de roxo e parece não se importar em cair no breu

o que penso ser o licancabur é o único ainda a mirar o sol, são 18:01 e ele não parece desistir

o roxo, abandona as montanhas para banhar o céu logo acima

enquanto o negro da noite que vem o empurra cada vez mais para o alto

são 18:03 e o que penso ser o licancabur mergulha na sua noite

ainda não posso ver nenhuma estrela, mas elas já estão lá

o céu logo acima dos vulcões parece se esquecer que deve escurecer e ganha um tom de azul pacífico

fui informado de que a noite cai rápida no atacama,

mas não me importo

por um minuto e meio se fez um silencio completo ao meu redor

são 18:08 no deserto e o azul ainda está, o roxo ainda está (porém quase cinza) e eu ainda não sei

esse é o meu terceiro deserto e ainda me ponho nervoso

parece que hoje as estrelas não querem, cansaram por tanto causar ayer

o frio tenta me vencer

o roxo me abandona, mas o canto do céu que deveria vir negro, vem ainda em azul pacifico

o licancabur não se importa

o sauvignon blanc esta quase acabando e isso sim me preocupa

são 18:15 e se alguém agora acordasse de um coma profundo pensaria que estaria vindo aurora

mas mesmo assim algumas luzes se acendem em um pueblo distante

as pessoas preparam o jantar e acendem a fogueira sem prestar atenção que ainda não ocorreu nenhuma estrela em toda metade leste do céu do atacama

o azul domina por todo, em um tom profundo, mais negro que o pacifico que ainda tenta a sorte pelo topete dos vulcões mas já sem tanta certeza

sao 18:20 e o meu vinho acabou

então surgem duas estrelas, são 18:21

creio que sejam aquelas duas logo ao lado do cruzeiro do sul que ajudam a desenhar a rosa quando estamos pedidos ou apaixonados (o que da na mesma)

ontem, em um escuro do deserto, me apresentaram mais de perto a uma delas e descobri que o seu brilho, que parece um, é na verdade fruto de duas estrelas absurdamente distantes entre si, mas como estão ainda mais absurdamente distante de nós, parecem ser a mesma

o que me faz pensar em algumas curvas da vida

parece que o negro convenceu o azul em rendimento

são 18:26 e ainda vejo o que penso ser o licancabur

como ainda vejo toda a cordilheira dos andes, que infelizmente não me lembram o corpo de minha mulher deitada, apesar de ver alguns seios

são 18:29 e posso decretar que a noite esta feita, porque apesar de poder ver o perfil do que penso ser o licancabur, não posso mais ver a mão se a estendo ao fim do braço

outras estrelas brotam, e sim, a primeira foi a vizinha do cruzeiro do sul que agora mostra seus quatro braços

são 18:36 e o que penso ser o licancabur ainda tem o seu perfil mais escuro que a noite sobre nossa cabeça

passa um cão

faz vento

penso ver marte

todo o resto, inclusive o que penso ser o licancabur que agora, as 18:41, é apenas uma dúvida, parece ser breu.

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