a r b r a ç o

Tenho saudade da gente. De toda gente, dos estranhos que esbarramos, dos esquecidos que encontramos, mas principalmente dos que chamo de a gente. Tenho saudades dos meus, do seu abraço, de cada abraço. Na primeira semana encontrei uma amiga que não via há tempos em uma farmácia, quase nos abraçamos, quase: ficou no ar. E doeu. Nesse mesmo dia fui levar algo para o meu pai, nos vimos de longe. Outro abraço no ar. Algumas semanas depois ele fez setenta anos, mais arbraços. Um pouco antes foi o meu aniversário, arbraços vindos do celular. Um pouco depois e veio o da minha filha, 3 anos. Quando ela fez um fizemos sua festa em uma praça, quando fez dois também, em outra. Foram todos dias azuis desse outono que nos cobre. Nesse último, quando houve um silêncio entre nós, tentei ouvir pelo ar as crianças brincando nas praças dos outros anos, os brinquedos girando, as comidas, as gentes, os abraços. Inspirei tudo pelo ar e abracei Joana, foi como ter todos ali, arbraçados. São tempos de distância, mas que possamos sentir que esse ar que nos separa - que pode ser perigoso e tentador - é também o ar que nos une, em um grande arbraço.

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