Ubi sunt qui ante nos fuerunt?

 

Onde estão aqueles que foram antes de nós?

.

Lembrei de um Drummond quando ouvi essa expressão. Depois lembrei de outro, ainda melhor. Primeiro vieram esses dois versos iniciais de Tarde de Maio:

“Como esses primitivos que carregam por toda parte o maxilar inferior de seus mortos,

assim te levo comigo, tarde de maio.”

Dizer primitivos certamente dói hoje, mas precisamos dar licença ao poeta. A imagem é linda. Ele carrega a lembrança daquele poente como aqueles que honram seus mortos carregando seus ossos como ornamentos. Essa é uma imagem ainda mais bonita: fazer de um antigo uma coisa e leva-la por ai, talvez vesti-la como um colar, talvez amarrar ao corpo tal amuleto. Guimarães falou “o quem das coisas”, uma coisa feita de um avô, uma mãe, um velho tem quem antes de ser coisa e vai ganhando outros alguéns com o rolar dos dias. Não é simples.  O segundo que lembrei é bem mais simples e serve mais para responder o latim, são três versinhos do poema Resíduo:

“Pois de tudo fica um pouco.

Fica um pouco de teu queixo

no queixo de tua filha.”

É assim simples, a mãe morre e vai parar no queixo da filha, um pouco. A minha morreu faz muito e foi parar no balanço dos cachos do cabelo da minha filha quando apostamos corrida até o jardim e eu perco sempre e miro sua nuca por baixo dos cachos e então eu ganho sempre. Ubi sunt me pergunta o latim, não pergunta, mas eu respondo. Minha mãe está um pouco nos cachos da minha filha, e também no seu olhar, e também no sorriso da minha sobrinha e no estar da minha irmã, irmãe. Esta no cajado que ganhei da minha tia e que minha filha diz que é uma varinha mágica. Meu avô, um, esta em um monte de coisas cheias de quem que ele talhou e espalhou: um quadro na sala, uma escultura na estante, um caderno aqui ao meu lado. O outro nas máquinas em que bato, a minha avó no olhar da minha tia atrás dos óculos que recebo pelo celular lá do norte do mundo, ou quando ponho minha filha no colo e canto o cavalinho em alemão, a outra nas receitas da minha irmã, irmãe. Todos esses foram antes de nós, e foram parar aqui, dentro.

Estamos vivendo um tempo de morte. Ontem morreram mil cento e setenta e nove pessoas de uma doença nova, só ontem. Não foram acompanhados em seu final como gostaríamos, não foram velados como mereciam, mas serão homenageados e lembrados. Para onde foram? Aqui, ai, dentro. Anteontem morreu um menino de catorze anos assassinado pelo estado com um tiro na barriga dentro da sua casa. Assassinado pelo estado. Dentro da sua casa. Catorze anos. Foi mais um, já foram tantos, mas foi um, um único. João Pedro Matos Pinto, 14, brincava com os primos antes de ser morto. Eu lembro de brincar com meus primos quando tinha catorze anos, tinha um jardim, tinham cachorros, tinha céu, a casa ao fundo. A casa em que João Pedro Matos Pinto, 14, brincava com os primos tem agora 71 marcas de tiro. Mas foram 72 disparos. Foi mais um, já foram tantos, mas foi um, um único. Pra onde foi esse menino? Dentro, em nós. Onde estão os que foram antes de nós. Onde estão? Aqui, presente.

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