ARGUMENTOs para exposições e trabalhos

ARGUMENTO | EXPOSIÇÃO ,háuma: | 2018

 

|cedo|

Na travessia¹ das veredas do grande sertão, Rosa, por Tatarana (antes Riobaldo, depois Urutu-branco), encontrou cem formas de tratar o Diabo². Lembro de nem meia dúzia para dizer Deus – não tomei nota.

Nonada³ não.

 

|soube|

De memória coloquei assim: cada homem carrega seu barco no peito.

Enquanto o que houve foi uma mistura de dois Couto:

1º .“-A minha raça sou eu mesmo. A pessoa é uma humanidade individual.

Cada homem é uma raça.” Dele próprio, no sotaque de João Passarinheiro.

Com: 2º . “O barco de cada um está no seu próprio peito” de provérbio macuá, em aspas pré conto.

 

|soube,outro|

Ainda em Couto, em outra dessas confusões (essa já tratando de Joana), eu disse:

Descendemos – todos – dos que hão de vir.

Mas o de Mia foi assim:  “Descendo, sim, dos que hão de vir”

Esse reconheço que melhorei pouco e creio que em junho (ou julho) já estará na janela de Joana – foi maio.

 

|prefácio|

“Assim é que elas foram feitas (todas as coisas) – sem nome.

Depois é que veio a harpa e a fêmea em pé.”

                                                                      - é Barros.

 

|memória|

Foi o que ouvi Carlos, pela voz de Gullar, me dizer: - “Como esses primitivos que carregam por toda parte o maxilar inferior de seus mortos, assim te levo comigo, tarde de maio.”

 

|tarde|

Contaram-me como de Nassar, mas depois, por Hesse, soube ser de Novalis:

“Para onde estamos realmente indo? Para casa, sempre para casa.”

                                (talvez em premonição à dúvida de Paz: “Ouvir-se: ir-se. Para onde?”)

 

|noite|

Creio que ouvi Bethânia cantar: “Todo cais é uma saudade de pedra”, mas Pessoa, em Campos, escreveu: “Todo o cais é uma saudade de pedra”    ......                                                                      Penso que o artigo, ao reduzir a área coberta pela saudade, amplie-a.

 

|além|

A cítara é um instrumento musical composto de 2 camadas de cordas sobrepostas de forma muito aproximada, mas sem se tocar. Ao citarista cabe sensibilizar apenas a camada superior, composta pelas cordas de execução. No momento em que ele produz um tom que corresponde à natureza de alguma corda de ressonância, na camada abaixo, ela reverbera e gera um som diferente.    = As cordas de ressonância vibram por simpatia.

 

|:háuma,⁴|

ana, helena, lea, lia, bia, bel, betina, bethânia, mia, sonia, catarina, clarice, alice, rosa, branca, íris, lilith, lilian, eva, medea, medusa, iansã, kali, geni, ceci, cecília, iracema, gabriela, capitu, lolita, emma, diadorim, julieta, ofélia, macabea, teresa, tristessa, nara, marina, maria, madalena, naya, nina, janaina, durga: joana.

                                   

|verso|

Parece-me certo dizer que cada homem pode fundar sua própria religião, esculpir seus deuses, adorá-los, adorná-los e postá-los ao altar ou aos correios para guardar/espalhar a palavra. Cada homem pode criar seu idioma + mandamentos + leis e ensiná-las às suas Joanas, ou por certo deixar ao tempo, ao peito, no relento, ao silêncio.

Que cada um invente seus modos de jogar para descobrir seu acaso.

Que cada homem amarre seus colares com os cacos que encontrar e pendure em sua Bel.

Que cada um costure seu manto e corra trace seu risco. Tenho fé, que só assim

                                                                                                                    travesseremos. 

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¹ Ato ou efeito de atravessar uma região, um continente, um mar etc. // Longo trecho de caminho ermo. // Palavra muito usada em Grande Sertão: Veredas com o sentido simbólico de vida, transposição de etapas. É a última palavra do romance, que é uma travessia pelos caminhos da imaginação, da reflexão, da arte.

 

² o Que-Diga, o Capiroto, o Rincha-Mãe, o Sangue-d’Outro , o Muitos Beiços, o Rasga-Em-Baixo, o Fancho-Bode, o Treciziano, o Azinhavre, o Hermógenes, o Tal, o Arrenegado, o Cão, o Caramulhão, o Indivíduo, o Galhardo, o Pé-de-Pato, o Sujo, o Homem, o Tisnado, o Côxo, o Temba, o Azarape, o Coisa-Ruim, o Mafarro, o Pé-Preto, o Canho, o Duba-Dubá, o Rapaz, o Tristonho, o Não-Sei-Que-Diga, O-Que-Nunca-Ri, o Sem-Gracejos, o Cujo, o Crespo, o Demo, o Dê, o Outro, o Figura, o Morcegão, o Tunes, o Cramulhão, o Dêbo, o Carôcho, o Mal-Encarado, O-Que-Não-Existe, o Grão-Tinhoso, o Cão-Miúdo, o Que-Não-Fala, o Que-Não-Ri, o Muito-Sério, o Cão-Extremo, o Coisa-Má, o Maligno, o Sempre-Sério, o Pai-Da-Mentira, o Bode-Preto, o Xú, o Dado, o Danado, o Lúcifer, o Satanáz, o Dos-Fins, o Austero, o Severo-Mór, o Drão, o Demonião, o Demônio, o Capeta, o Demônio-Mestre, o Tranjão, o Tibes, o Tentador, o Anhangão, o Passopreto, o Diôgo, o Dianho, o Dião, o Rei-Diabo, o Satanão, o Aquele, o Barzebu, o Berzebu, o Belzebu, o Bute, o Ele, o Cabrobó, o Careca, o Danador, o Das Trevas, o Diá, o Mal Encarado, o O, o Ocultador, o Que-Não-Há, o Solto, o Tendeiro, o Tentador, O-Que-Nunca-Se-Ri. 

 

³ Nada; coisa sem importância. // Forma arcaica da aglutinação de non + nada. Talvez o mais famoso neologismo criado por Guimarães Rosa. É a palavra inicial de GSV, constituindo sozinha a primeira frase e a primeira estranheza e está também no último parágrafo. “... indicação de que o mundo de GSV estaria, numa imitação da Criação Divina, sendo criado ex–nihilo”

 

⁴ substantivo feminino // neologismo, deco adjiman, 2017 // 1. Sinônimo de alma: princípio vital; vida. 1b. Substância autônoma ou parcialmente autônoma em relação à materialidade do corpo. 1c. Ser humano; pessoa. 1d. Expressão, animação, vigor, vida. Condição primacial; essência. Ânimo, energia, coragem. 2. Indicativo de presença feminina no tempo atual e no espaço próximo. 3. Uma palavra de amor. 4. Um paladar. 5. Sinônimo de emoriô: ligação, elo, união. 6. Feminino de Ôm, ou Aum, o mais significativo e poderoso mantra da tradição hindu, que representa o sopro presente na criação do universo. 7.  Uma aprendizagem. 8.  ou O Livro dos Prazeres. 9. A pontuação que acompanha o vocábulo amplia seu significado, sendo o  “:” no início da palavra indicação de que ela é uma conclusão de tudo que a antecede e a “,” ao final indicação que há um porvir, que é desconhecido mas dependente dela. 10. Relativo à Joana.

 

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Rosa – João Guimarães Rosa, escritor brasileiro. 1908-1967 // Tatarana (Riobaldo, Urutu-Branco) – Personagem do romance Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa // Couto – Mia Couto, escritor moçambicano. 1955- // João Passarinheiro – Personagem do conto Vendedor de Pássaros, de Mia Couto // Joana – Minha filha,. 2017 -  // Mia – Mia Couto, escritor moçambicano. 1955 – // Barros – Manoel de Barros, poeta brasileiro. 1916-2014 // Carlos – Carlos Drummond de Andrade, poeta brasileiro. 1902-1987 // Gullar – Ferreira Gullar, poeta brasileiro. 1930-2016 // Nassar – Raduan Nassar, escritor brasileiro. 1935- // Hesse – Hermann Hesse, escritor alemão 1877-1962 // Novalis – poeta e filosofo alemão. 1772-1801 // Paz – Octavio Paz, escritor mexicano. 1914-1998 // Bethânia – Maria Bethânia, cantora brasileira. 1946- // Pessoa – Fernando Pessoa, escritor português, 1888-1935 // Campos – Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa. // Bel – Isabel Pimenta Bueno Adjiman, estilista brasileira (a que amo). 1985 - .

 

 

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ARGUMENTO II | EXPOSIÇÃO ,háuma: | 2018

 

Há uma menina que nasce. Há uma alma _ :háuma, _ Há deuses que nos observam? Adeus. Quem, quais, onde? Que cada um crie os seus e então possa postá-los ao altar ou aos correios. Uns tantos espalharam-se por mãos amigas no último sábado. Adeus. Há deuses que são brinquedos, outros que estão em batalha. Eles existem. Há talhos, há mar, há além da lenda. Háriscos, para arriscarmos e riscarmos e então riscarmos novamente. Há manhã amanhã, sempre. Fazer planos para então amassar e guardar e esquecer, sempre. Há fazeres, afazeres a fazer. Ave maria todas, uma coleção de aves e suas asas, o espaço branco da prece inventada. Amem, amigos. Hálados ou hátravés – do tempo – esse único Deus unânime que nos desgasta. Como disse Rosa: “... , que o riachinho rola” Há casos em que o acaso jamais será abolido. Mallarmé com candomblé, novo exemplo. “Descendo, sim, dos que hão de vir” Joana é minha mãe, Sonia, todas as minhas avós e além. Amém. Há uma menina que nasce. :háuma, como um 7º bijá-mantra, que reverbera em minha garganta desde a 1:34 do último 04.05: lâm, vâm, râm, yâm, hâm, ôm, háuma.

A poucos passos do centro, dois lances acima, antes do sol que insiste lá fora, pegue um dos papéis da parede e guarde, ou doe, ou esqueça, ou fume: espalhe.

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ARGUMENTO II | EXPOSIÇÃO eu,mesmo:outro | 2016

 

Transportar a poesia: caminhar com ela, carregá-la nas costas, de forma física mesmo: suando. Como um carregador de sonetos, que na verdade carrega tijolos e tenta vendê-los na feira, ao lado das uvas. Talvez como um afiador de facas, que na verdade afia rimas e de tanto afiar faz uma faca só lâmina.

 

Aprisionar as melhores palavras, já pálidas de exaustão, ou amarrar os melhores sujeitos: Manoel com James, Walt com Charles. Identificar a primeira transa entre as palavras de uma língua, sentar no chão e brincar com elas. Fazer um inventário de línguas extintas e então traduzi-las para uma língua inventada, como em João. Pintar os 8 bois de Rosa nas cores da paleta que Guimarães inventou.

 

Inversar₁ o horizonte em beco; ou a ação em pedra; ou o reflexo em negação.

 

Tratar de inversar a pedra, errando. Acompanhar o envelhecimento da pedra, que cresce diminuindo. Ficar quieto e passar a próxima terça pisando a grama da tarde, então trocar perdas por pedras e jogá-las no mar para ver quantas vezes pingam.

 

Jogar dados e abolir o destino, ou jogar búzios e adivinhar o acaso.

 

Errar.

 

Navegar pelo mar de dentro e pescar distâncias, acenos, bailes, fendas, cais, esgrimas. Guarda-las no almoxarifado por uma vida inteira para então doá-las aos netos.

 

Observar a disputa entre duas máquinas que invertem, inventam: inversam. Ser eu, mesmo outro. Ser eu mesmo: outro.

 

Montar uma biblioteca com estantes de impenetráveis, prateleiras de uma literatura que nunca existiu e gavetas de coisas acontecidas, e, então, finalmente, contentar-se com o silêncio das coisas.

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ARGUMENTO | RESIDÊNCIA KAÁYSA | 2018

 

(espreita)   __horizonte__    desvio,deriva: pouso

 

 

|deriva|

 

Chovia muito quando saí para a minha primeira deriva em Boiçucanga. Choveu muito durante todos os dias em que estive lá, quase todo dia e quase por todo o dia, durante os 22 dias. Lembrando agora, creio que essa primeira deriva foi a única em que estive sozinho por todo o tempo.  Por isso e pelo fato de ter sido a primeira foi a mais intensa e reveladora. Todas as outras 17 foram contaminadas por ela. A proposta que me coloquei foi baseada no texto “O Funcionamento da Atenção no Trabalho do Cartógrafo” da pesquisadora Virgínia Kastrup e que pode ser resumido como um deslocamento físico, sem destino, rota ou objetivo pré-definido que se inicia com um estado de atenção flutuante e igualmente distribuída por todos os elementos até que essa atenção, tocada pelo acaso, vai se afunilando até algum elemento específico que então torna-se o “objeto” de estudo. Nessa primeira deriva percebi a enorme semelhança desse exercício com a meditação, já que ambos apresentam como principal desafio inicial o processo mental de afastar pensamentos. A deriva, entretanto, por envolver um deslocamento físico oferece diversos e sempre novos focos para a concentração. Esse meu primeiro caminhar foi emblemático por ter disparado diversos gatilhos e revelado algumas descobertas, mesmo tendo sido feito em um caminho por onde eu já havia passado diversas vezes antes e mesmo sendo um caminhar que não permitia grandes desvios (era uma trilha na mata atlântica), foi como se eu me colocasse em um estado de atenção capaz de deixar de lado minhas certezas prévias e, assim, me abrir mais para novos conhecimentos. Em uma frase que poderia estar no rodapé de livro de autoajuda, posso dizer que esse processo me fez ver de forma reveladora até os caminhos já conhecidos. Na descrição de Virgínia sobre o afunilamento da atenção do cartógrafo ela cita quatro fases: rastreio, toque, pouso e reconhecimento atento. Para descrever o toque há a metáfora de um ser, talvez uma ameba, que rasteja com o corpo todo tocando uma superfície lisa e então alguma pequena saliência toca a sua atenção, na minha primeira deriva foi o toque das folhas molhadas no meu pé descalço que desviou o meu foco. Desde a primeira e em cada deriva, produzi um “livro” sobre o “objeto” de estudo com texto e elementos recolhidos. A união desse material recebe o nome de “O Livro dos Livros de Deriva”. Durante a residência abri 2 outras frentes de deriva, uma que resultou em um grande desenho de diversos híbridos entre gráfico e mapa, em uma tentativa real de cartografia dos espaços que percorri tanto no entorno com alguns internos. Esse grande conjunto de desenhos, chamado “traço” foi feito em uma espécie de pergaminho que se desenrola tendo uma linha (do horizonte) como fio condutor e de costura entre eles. A outra deriva ocorreu em paralelo com a leitura do livro “As cidades invisíveis” de Italo Calvino com o qual tive o primeiro contato durante a residência. No livro Calvino descreve cidades inventadas e todas elas possuem nomes femininos e diversas características que poderiam também descrever uma mulher. Durante minhas caminhadas recolhi pequenas ruínas e durante minha leitura recolhi pequenos trechos de Calvino, o trabalho “pois, que todas as primeiras cidades eram fêmeas” é o encontro disso.

 

|desvio|

 

Chovia muito enquanto terminávamos o forno de tijolos sobre o jardim de Lourdina. Choveu muito durante todos os dias em que estive lá, quase todo dia e quase por todo o dia, durante os 22 dias. Lembrando agora, entendo que empilhar os tijolos com os portugueses nesses primeiros dois dias da residência, com sol, chuva, fogo e barro, falando sobre barro, fogo, água, deuses e tanto foi como escrever o prefácio da minha estadia: tempo, equilíbrio/balanço, silêncio, descoberta. Os tijolos que sobraram caminharam para minhas produções, assim como diversos pedaços de madeira que salvei do fogo. Conversando sobre arcos com o português de Cunha lembrei das minhas cunhas e, enfim depois de tanta dança, elas encontraram forma e então tantas outras vieram. Desvios. A cunha como elemento de desvio da linha. Assim surgiram as séries “cunha(s) – conjunto de exemplos” , “cunha de 2” , “cunha de 3”, “encaixes” o trabalho “arco pleno” e outros da instalação “desvios” .

 

 

| horizonte |

 

Todo desenho, por mais abstrato, precisa de um parâmetro. Todo texto caminha sobre um risco. Nas remadas que faço em alto ou baixo mar, ao longe, há o limite que é ao mesmo tempo o além e o porto. Bandeira questionou a importância da linha do horizonte para quem mira o beco. O beco seria mais escuro, podemos sempre fechar os olhos e ver: o além e o porto. De uma forma ou de outra a linha do horizonte está em todos os trabalhos que fiz na residência, como linha ou como horizonte, ou como porto ou como risco, parâmetro ou como além. Mais evidente na série “horizonte entre pe(r)d(r)as” e “aprisionamentos” e nos trabalhos “horizonte em riscos” e “hádeuses, miragem”.

 

| pouso |

 

“O pouso não deve ser entendido como um parada do movimento, mas como uma parada no movimento.” (Virgínia Kastruo). Pouso e sigo, tenho como pouso constante o chão e o mar, não só como superfície, mas como palavra. Descobri o feminino dessas palavras, a mar para o oceano que faz mais sentido e a chã para o que pisamos. Desse pouso surgiu o trabalho “quero esculpir uma canoa só para colocar o nome chão como batismo em sua proa” que é ainda uma ideia de uma canoa feita de tijolos tendo a peça de garapeira em que esculpi a palavra chã na proa e a frase “o mar é sujeito fêmea: a mar, portanto”, como aquelas frases de caminhão, na popa onde esperamos vento.   

 

| espreita |

 

observar atenta e ocultamente, espiar, espionar, vigiar, olhar atentamente, perscrutar, esquadrinhar, intuir, prever, adivinhar. procurar, esperar, aguardar, estudar, analisar, dissecar. É sempre um início.

 

 

 

Boiçucanga, outubro 2018

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ARGUMENTO | TRABALHO DE JOIA | 2017

 

de joia*, de joio: somos (ou estamos?)

suspeita-se que seremos, pois fomos.

o ofício do ourives: partilhar, excluir excessos, engastar, fundir, lapidar, reordenar.

(se ouvires a onda na areia, por dias bailando, traduza-me o que ela canta)

conto, ponto, junta e nó. pedra, pedro, galho, vidro e corda e arame e seixo e sorte.

 

 

objetivo:  objetivar₁ , em joia*, o espaço contido entre o vestígio ₂₊₃ e o indício ₄₊₅

 

 

sendo:

₁ dar existência material a.

₂ qualquer marca, sinal de alguém que passou ou de algo que sucedeu.

₃ aquilo que restou; resto, sinal.

₄ o que indica, com probabilidade, a existência de (algo); indicação, sinal, traço.

₅ signo não convencional que está fundado na relação de contiguidade com a realidade significada, como a fumaça e o fogo, a nuvem escura e a chuva.

 

 

Dessa forma deve-se tratar o vestígio como termo obrigatoriamente relacionado ao passado e o indício como termo mais carnalmente ligado ao futuro, ou, no máximo, a um presente paralelo (como a fumaça esta em um presente paralelo ao fogo).  Assim, o presente real fica em estado de abandono, ausente ao toque, suspenso, excluindo-se, portanto, qualquer possibilidade de materialidade acabada.

Tendo por objetivo “dar existência material” ao espaço contido entre “aquilo que restou” e “o que indica” e, por consequência, como posto no paragrafo acima, tendo o “presente real em suspenso”, resta-nos estar à espreita e versar sussurros apenas quando o silêncio não bastar.

 

.:. Com isso, sobre a mesa repousam prováveis suspeitas, suposições, indicações, pegadas, pistas, rastros, traços, restos, sinais, premonições, signos, sintomas, índices, evidências, testemunhos, mostras, prenúncios, marcas, esquícios, laivos, palpites, receios, hipóteses, deduções,  teorias, cismas, presságios, manchas, pontas e provas.

 

 

*Como esses primitivos que carregam por toda parte o maxilar inferior de seus mortos,

Assim te levo comigo, tarde de maio, (...) c.d.a.

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ARGUMENTO | TRABALHO DESENHO | 2016

 

 

O principal parâmetro de construção de um desenho de uma figura geométrica é o horizonte. Não só como linha de referência a partir da qual todos os outros traços irão derivar, mas também – e talvez principalmente - como amplidão (ou ambição).

 

Tratando-se de uma figura geométrica outras linhas parametrizam a sua construção, como a latitude e a longitude que se cruzam acima da figura, determinando a localização do desenhista e com isso parte significativa do ele é feito. Além das linhas, alguns ângulos são parâmetros, principalmente o ângulo do sol que determinará a incidência da luz e, consequentemente, o formato ou mesmo a existência de sombra no desenho.

 

Tratando-se de uma construção algumas normas parametrizam a sua geometria, como a gravidade – tanto na forma da lei de Newton, como na forma do senso do quanto é realmente grave ou urgente a necessidade do desenho. As normas vigentes na formação do desenhista (que determinam outra parte importante do que ele é feito) e a forma como ele segue ou rompe essas normas também irão parametrizar essa construção.

 

Assumindo que o desenho em questão pretende-se arte, e não arquitetura ou design, por exemplo ( e digo isso com a placa de Brusky “o que é arte e para que serve?” pendurada no pescoço), há risco de que o seja mesmo antes de sua materialização, talvez até antes de seu projeto e  provavelmente antes do seu processo e critérios.

 

 

ou

 

Assumindo que o desenho em questão pretende-se arte, e não arquitetura ou design, por exemplo ( e digo isso com a placa de Brusky “o que é arte e para que serve?” pendurada no pescoço), entendo que há risco de que o desenho seja arte mesmo antes de sua materialização, talvez até antes de seu projeto e  provavelmente antes do seu processo e critérios.

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