mar de dentro

Faremos como fazem os náufragos que, em um último ato de desespero, lançam ao mar o seu grito de socorro ou de adeus em uma garrafa. 


Mas o nosso mar será o tempo, este imenso.

Alias, até alguns dias antes da exposição esse seria o nome do trabalho, mas então me ocorreu “mar de dentro” que além de ser o “nome” de uma dos lados do mar em Fernando de Noronha me pareceu ser uma imagem perfeita para o tempo que nos percorre. 


Nosso grito talvez seja de socorro e de adeus, mas não só.


Minha intenção é que as palavras colocadas em cada garrafa despertem em nós lembranças e momentos e que eles então sejam projetados para esses recipientes, criando assim uma espécie de almoxarifado de memórias. 


Preferi manter as palavras sempre no singular, mas com a lembrança do plural, já que algumas escolhidas não tem plural, como “ontem” - mas durante a vida tivemos vários “ontens”. Outras palavras já são, por motivos diferentes, plurais mesmo no singular, como infância ou cais. 


O mar de dentro 1 é composto por 29 peças, e o 2 por 6 peças. Cada peça é um conjunto de madeira e vidro. São diversos tipos de madeira, das nobres como peroba rosa, freijó e cerejeira, as mais ordinárias como pinus e cedrinho. Algumas recolhidas pela praia, outras são sobras de outros trabalhos meus ou de marceneiros e madeireiras de quem costumo recolher restos. Os recipientes também foram recolhidos em longas caminhadas, alguns ganhei, outros achei ou comprei. 


Cume, ida, cais, poeira, mãe, eco, ontem, garoa, tarde, orixá, tom, aceno, fenda, distância, gole, beira, conto, breu, ilha, baile, nó, esgrima, erro, leste, dose, raiz, nuvem, silêncio, acaso, abismo, oceano, breve, branco, infância, curva _ s. 


Um mar inteiro e interno.


Talvez uma proposta de navegação, para trás, para frente e para dentro. .

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