PEQUENAS FICÇÕES

os pássaros cantam menos no inverno, ao contrario do mar que rosna dentro da noite

 

num largo lago branco, larga-se um pedaço do que sou. dorme. algo entre o susto e o gozo expressa seu rosto refletindo o rosnar do mar que entra em brisa pela fresta, rebate na parede e se espalha por nós. somos restos de mar, somos restos da chuva que não pudemos e o sol da tarde de inverno não nos arde mais a pele. somos pó e somos sonhos e somos tão crianças ainda e somos como dois continentes que se miram por um gibraltar, eu áfrica ela europa. somos um erro do acaso, que nos acertou. a noite esta baixa, pesada e sem estrelas, o mar ganha terreno, grão por grão ganha areia, as ondas buscam a lua que, por cima das nuvens, é cheia e deixa o busto das nuvens em neve. é para esse lugar que vôo agora, entre as nuvens pálidas de lua e o céu que as cobre como um pano muito escuro cheio de furos por onde passa a luz das estrelas. mas devo voltar a morena, devo voltar a mulher que dorme diante de mim, que dorme como quem flutua que tem a boca entre aberta, talvez suplicando um beijo, talvez apenas para beber o mar penetra. parece contente, parece próxima, mesmo ausente parece em mim. e dorme, inspira mar, expira perfume, e dorme, e fundo, e sonha, o que será que sonhas? mais eu, mais mar, mais nós, o que será que pedem esses olhos fechados e vivos e certos e vivos e tristes como devem ser os olhos morenos de uma morena que se sabe linda. tenho sono, tenho vontade de abandonar a vigília, de ser sonhos também, tenho peso em meus olhos, mas eles não se entregam, a miragem exala um incenso fundo, produz um cenário de encanto, meus olhos não cansam, eu não tenho como sonhar além, dormindo só vou perder tempo. e tempo não tenho. a brisa agora é vento, o vento agora é mais forte e traz mais sal e traz mais frio e traz mais segredos de naya e traz mais o escuro da noite, mais forte. a parede resiste, os vidros quase desistem, as madeiras choram, isabel reclama com um som de felino e então se entrega mais, entrando em um próximo estágio do sono. sou além, a chama treme e chama as sombras da parede para uma dança. a vela é breve, e vela por minha mãe, ausente, pela terra, doente, e por nada mais. sou madrugada constante, não resisto, aproximo os lábios de sua pele, é quente, é lisa, é dália, é tulipa, é begônia, é canto de rio com mar em setembro. não lembro se sou homem ou sou menino, se marido ou instinto: obedeço e deixo a língua provar. mingua saliva, salivo, é pêra, é pêssego, é susto. abuso, beijo do ombro nu à raiz do pescoço. ouço um gemido, será ela? será mar? será madeira? rasgo sua fronteira, vou além em mim, vou de vício, volto. me deixo nu por baixo do lençol, ainda não encosto seu corpo mas todo o meu corpo já sente seu calor. e vibro, a bananeira ao lado da janela esperneia como um recém nascido, seus braços batem querendo entrar, é como meu corpo todo, cada poro, cada célula, se debatendo: querendo mistura. já não posso, minha mão se enche com seu seio esquerdo, sinto medo, é azul, é morena, é banheira, almofada, ela geme. a noite? a fêmea? Minha gêmea responde com preguiça e sorri, dormindo ainda. aproximo, meu corpo inteiro a contorna, somos tortos e somos um sem fim cheio de meios, interno adormeço, externo cresço. peço menos espaço, não posso tanta distância mesmo nossos corpos sendo o mesmo. meço seus olhos, ela é posso ainda, ameaço seus lábios, ela cede. tenho sede de seu beijo, e mato. tenho desejo de sua pele, e mato. tenho instinto por seu meio, e entro. ela geme, agora é ela, mais fundo que a noite, mais doce que o mar, mais denso que o vento, somos nós e assim navegamos. assim caminhamos e percorremos metade da noite, dançaram nossos corpos ao som da madrugada, eu, ela e nada. sem palavras fomos apenas em toques e cheiros e beijos e trocas, sem palavras nos esquecemos e nos descobrimos e nos perdemos e nos encontramos nos lençóis e tantos foram os nós e a sós nos entregamos. poucos lábios tiveram minha boca para tanta pele e tanto beijo, seus seios de segredos, seu ombro, nuca, nunca fui tão entregue, suas costas de costas com mar, seus pêlos,  seu sexo é concha, é fruta, é cachoeira que provo e não canso e me banho e me espremo e não canso e provo e gosto e não canso e descubro cantos e canto quieto e chego mais perto e provo de novo e não canso até que ela me pede. me dou, então. inteiro. ainda mais quieto, a noite, ainda mais profundo, sem tempo, ainda mais entregue cavalgo, busco algo lá dentro, sou movimento, instinto ela chama, a chama dança, ela cancã, silêncio, sou inteiro, sou interno, sou céu e inferno sou mais fundo e meu mundo passa a ser úmido, quente e me envolve. tenho medo, choro. tenho sede, imploro beijo em sua boca, em seu seio esquerdo. ela me olha, acordada finalmente. é madrugada. tem fome, tem sede também. quer carne e além, quer meu corpo, quer meu gosto, quer nossa mistura. é noite escura lá fora, quieta agora. ela fala meu nome completo, a noite. ela sussurra o nome pelo qual me chama, a menina. elas me ensinam a amar e eu entendo, a noite, a mulher, elas me ensinam a ser só. sou só com elas, somos só e o mar, pelo vento, vem ter com a gente e nos ensina uma dança lenta. a menina declama gemidos, sem vergonha revela seus segredos, conduz meus dedos enquanto usa meu corpo e geme e treme e cola nossas peles com suor e se dá e se deixa e, exausta, se deita e me pede. tem sede. tenho fome e como amo e deito e lento me entrego e fundo descubro seus mundos e ela pede, eu vou. ela chama, eu vou. ela suplica, eu vou. ela implora, eu vou por completo e explodo e ela implode e nós vamos juntos para além de qualquer lugar onde jamais estivemos, ela, mulher, eu homem entregues em nós e, enfim, para todo o sempre da noite.

 

 

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keep walking

                             josé é um bom menino. criado no leite com pêra, coado e sem casca, como diriam em minas. josé frequentou bons colégios, é sócio de clube de elite, passava às tardes comendo pão com manteiga com faixa azul ralado em cima esquentado no forninho e servido pela empregada. desde os onze josé é conduzido pelo motorista ao shopping para cortar o cabelo. aos doze ganhou um nintendo, aos catorze o nintendo novo, aos quinze o playstation um, aos dezessete o dois, outro dia o três. josé agora quer um wii. josé ganha roupa de marca no natal, josé nunca passou roupa, josé nunca fritou um bife, ou um ovo, se tiver fome josé chama o delivery. se tiver tédio josé passa na blockbuster e passa no cartão e pronto: passa a tarde com comédia na teve do quarto. josé passa para dar um beijo e ganha cinqüenta do pai no sofá. tem dia que josé não dá bom dia para o porteiro do prédio, será o tédio ou o insulfilme? josé nunca repetiu de ano, josé tinha professores particulares de química, inglês e geografia. josé nunca gostou de química, nem de física, nem de biologia, nem de geografia. josé gostava de bola e de menina. josé certo ano gostou de maria e lhe mandou um verso, deu certo e ganhou um beijo. josé outro dia foi no prostíbulo resolver pendências, dar baixa em certas urgências. teve um ano no colégio que josé conheceu um novo amigo, vindo do rio, mais velho, mais decidido com as meninas, mais alto, que jogava bola melhor e basquete melhor e se chamava berrrnardo, assim mesmo com três erres e pronunciado com sotaque carioca. berrrnardo, certa tarde no prédio de josé, mostrou um saquinho com ervas. não era cidreira que a mãe de josé tomava nas noites de chuva, não era orégano que o pai de josé jogava na pizza do camelo, não era hortelã que a irmã de josé botava no molho nas noites de então. não, não era. numa tarde de domingo josé saiu de casa sem avisar ninguém para ir morar na rua, ia fugir: já não dava mais para agüentar os pais, parou antes no estádio para gritar por seu time, comeu um pernil, uma pipoca, o são paulo empatou em zero com o ituano e aos quarenta e três do segundo tempo começou a chover então josé esqueceu de fugir e voltou pro fantástico. josé é um bom menino, aos oito roubou dinheiro do pai e comprou flores pra mãe. aos vinte deu um abraço mais longo na irmã e falou boa sorte sem dizer nada. josé é um bom garoto, nunca comprou briga sem motivo. josé aos tantos pegou gosto por praia, por pé na areia, por miojo e violão, por reggae e garotas de saia, josé parecia ter encontrado o que lhe bastava mas a burocracia da vida exigiu que desse voltas e as voltas lhe cansavam as pernas e as gentes lhe cansavam os ouvidos e o cansaço lhe pendia as costas e as ervas de berrrnardo e as magias de fernandinho que faziam das noites mais leves, das mais longas mais leves, das mais solitárias mais leves, das mais tímidas mais leves ... mas as noites terminam e já são seis horas, e já é de manhã, hoje já é amanhã, e josé ainda é anteontem, as gravatas entram e saem do metrô e seu corpo só quer um metro e meio para se esticar, seu copo ainda tem sete goles e ele só quer ser só e ser ontem por mais um bocado, mas batem na porta do seu quarto e ele não esta no quarto então batem à porta de seu peito e ele não esta mais dentro: é o raiar do dia que judia de josé, é o sol que dá luz ao seus medos e as calças andam tão depressa pelo centro, seu centro todo espalhado em sua cabeça, a cidade o fita de baixo, dos lados e de cima, quase que de dentro nessas manhãs e josé preso na madrugada, ainda, anda sem ser nada, anda sempre só nos dias de depois, mas lá fora os seres gritam, gritam e pulsam, os trens, os homens, os cães, o caos, os bueiros: todos gritam e pulsam e exalam seus cheiros, as meninas de ontem caminham disfarçadas, as estrelas declamam nas calçadas, josé é apenas o ditado que alguém anota na orelha de um livro velho, parece que a cidade o esquece, não depende dele: pulsa toda cheia de si própria, quase transborda, a torta e josé é só um rascunho que ninguém compreende, que ainda precisa ser passado a limpo, xerocopiado em três vias e autenticado e carimbado em cartório. na verdade josé chama-se denis, e guilherme, e fábio, e felipe, e francisco, e marcelo, e marcinho, e claudio, e jorge, e augusto, e joão e josé chama-se cássio, e igor, e ronaldo, e rubens e diogo, e milton, e muitos, e túlio e todos ... e um dia, em uma quase manhã das três da tarde, josé lê em um antigo postal de whisky mal colado no vitrô do banheiro sujo de um boteco, o pensamento de um inglês balofo que dizia que nunca é tarde para ser o que você poderia ter sido, e, logo abaixo, no outro postal do mesmo whisky só que agora vermelho, o dizer de um chinês de alguns séculos atrás que gritava que até uma jornada de mil milhas começa com um pequeno passo e aquilo em conjunto com os últimos tantos meses e os talvez tantos próximos o põe em pensamento e silêncio e o incomoda e o motiva de forma tal que sobe a serra e pede a conta e pede audiência com quem de direito e ordena uma coca gelo e limão ao garçon no balcão e então um chapado e então um pingado e molhando o pão no café interrompe, em pensamento, o remoer do pai, e pega em sua mão e o convida a ouvir um solo de baden, um piar no alpendre, um pedido de perdão, um clamor de ajuda e interrompe, em pensamento, a reza da mãe e a pega pela mão e implora perdão olhando nos olhos ou ainda mais fundo e pede ajuda baixando a cabeça e pede uma chance e pede um norte e segue e segue porque josé é um bom menino e parece que foi um inglês de só um século atrás que disse que nunca é tarde para ser o que você poderia ter sido e seu colega de postal, um tal de um chinês de vários séculos antes sussurrou que até uma jornada de mil milhas começa com um pequeno passo e pode parecer frase de auto ajuda de postal gratuito de whisky para alegrar bêbados metidos a filósofos, mas até que faz algum sentido.    

 

 

 

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Conto de Inverno

 

            Ela tinha um cheiro doce e um nome esquisito: Lácia. Que espécie de nome é esse? Lácia, lembrou-me de láctea e lasciva, gosto de ambos. Sempre fui péssimo com nomes, é a pessoa falar e depois de dois minutos de papo eu esqueço. Ao longo dos anos e dos embaraços desenvolvi técnicas para evitar os constrangedores foras: olhar nos olhos e repetir o nome da pessoa logo após a apresentação, associar a alguém conhecido, um artista que seja. Mas Lácia?! Acho que foi a estranheza que me causou seu nome o responsável pelo primeiro encanto, e pelo fato que nunca tive problemas para lembrar seu nome, nem mesmo naquele dia em que a conheci. Ou talvez tenha sido o seu cheiro doce. Conheci o cheiro antes do nome: era doce e escorria-lhe pela nuca.

            A madrugada estava fria, mas não dentro daquele teatro. Era escuro, uma multidão se espremia para dançar o samba-rock tocado por uma banda alegre e colorida sobre o palco. Minha única companheira, além da solidão, era a quarta ou quinta lata de Skol gelando a minha mão. Ela, Lácia, estava vestida com uma calca branca, meio solta, meio hippie. Uma blusa justa cobria seus seios que miravam meus olhos. Pele morena do sol da Bahia, cabelo liso, curto, fino – talvez índio, talvez mouro. Morenos eram também os olhos grandes e fundos como a noite. A Skol girava a minha cabeça e incentivava movimentos a meu corpo. Atraído, passei a dançar ao lado dela. Trocamos sorrisos, ela dançava para mim e para todos os outros homens da Terra.

            Tocamos as mãos meio que sem querer, ela me olhou e sorriu mais. As mãos se tocaram novamente, meio que se querendo. Lacei seus dedos e ela continuou dançando, cada vez mais próxima, mais próxima. Foi nesse momento que conheci o seu cheiro. Doce. Mais próxima. Até que virou-se e passou a dançar na minha frente, virada para o meu corpo. Lácia era mais baixa que eu, jogou seus cabelos sobre os olhos e por alguns minutos dançamos juntos, esfregando discretamente nossos corpos, com as mãos em nó, sem que ela me olhasse. Protegia seus olhos do meu olhar com seus cabelos negros, mas podia ver que sorria. Então, num movimento suave, ergueu seu rosto, o cabelo escorreu por sua testa: congelou seus olhos aos meus, sempre no controle da situação, dançamos por mais eternos minutos sem tirar os olhos de dentro do outro. Mergulhei no negro de sua noite, entrei em seus olhos, era como nadar em um oceano escuro e quente, cheio de mistérios e promessas. Dançávamos agora uma música só nossa, pessoas passavam esbarrando-se em nós mas era apenas mais um passo em nossa valsa, o mundo não existia ao nosso redor.

            Com a mão que estava livre ela tocou o meu peito, percorreu com forca o caminho até a minha nuca. Trazendo meu ouvido para perto de seus lábios ela cantou: meu nome é Lácia, eu te gosto. Quase sorri, até que ela voltou sua face para frente da minha e já com os olhos fechados botou sua língua úmida dentro da minha boca. Aquele beijo foi longo, os nossos corpos ainda dançavam em ritmo único tentando acabar com qualquer espaço que existisse entre eles. Aquele beijo foi longo. Aquele beijo foi doce, como era doce toda sua pele. Aquele beijo foi longo, com as mãos percorria seu corpo, lendo o braile da a sua pele nua, o final de suas costas magras e molhadas com uma fina camada de suor. Aquele beijo foi longo, depois do beijo busquei-lhe o ouvido: Meu nome é Marcelo, gosto do teu gosto. Foi o melhor que pude dizer. O segundo beijo foi instintivo, mais longo.

            Quase três da manhã, estava acordado há mais de vinte horas. O encanto substituía qualquer cansaço. Soube que ela amava teatro, trabalhava como vendedora para as contas e o curso, dividia apartamento com uma prima, vinha do sul, tinha medo de altura e odiava cerveja. Disse que gostava de andar descalça, era de gêmeos, não tinha irmãos, problemas com o pai, saudades da mãe e do céu sem tanto cinza, tinha vinte e três e gostou dos meus olhos.

            Gostei de seu cheiro. Será seu cheiro, doce, que lembrarei até o fim dos meus dias, ou até que algo me distraia novamente. Mas ainda é Lácia que mora nas minhas solitárias noites desse inverno paulista. Ainda ontem, quase um mês depois do nosso encontro, encontrei seu cheiro num canto do travesseiro. Então voltemos àquela madrugada.

            Cerveja não gosta, caipirinha talvez? Não, também não. Adorava vinho, mas, tive de concordar, vinho nada combinava com aquele lugar. Água mesmo. Gostava do jeito dela de falar com as mãos, principalmente quando tocava no meu peito ou segurava o meu braço. “Cara, também não entendo como é que eles têm coragem de se atirar sem o reserva’’, foi uma das coisas que disse segurando meu braço enquanto filosofávamos sobre o vídeo que passava entre as garrafas do bar. Quase quatro e tomamos um taxi para a casa dela. Um prédio velho, o elevador tinha um cheiro que misturava pizza e cachorro. Décimo terceiro andar, ‘’Tem vista para o parque”.

            Abriu a porta, descalçou os pés, disse que a lâmpada estava queimada e acendeu o abajur. Riscou também uma vela, já curta, que estava na mesa de centro, com o mesmo fósforo acendeu o incenso quase queimando o dedo. “A minha prima dorme, mas pode por um som bem baixinho” disse, enquanto tirava umas roupas do chão e do sofá e apontando o dedo para o aparelho de som. Djavan, Marisa Monte, alguns Beatles, Dylan, muitos Marley, Mantras Hindus, Joplin, Cartola. Então vi uma das cenas mais lindas de toda a minha vida: Lácia abrindo a geladeira, seu corpo revelando-se com aquela luz branca. Ela tinha uma mão na boca, a outra na porta, um pé firme no chão e o outro apenas com a ponta; tinha uma cara de quem enfrenta um grande dilema. Escolhi um Caetano. Ela só sorriu: “Gosta de uvas?”.

            Sexo e uvas, combinam. A madrugada fria, a aurora já querendo romper o céu, o canto do primeiro pássaro, o primeiro sussurro de prazer. Abracei-a por traz enquanto fechava a geladeira, deixei minha mão percorrendo sua barriga firme e quente. Sua pele era lisa e meus dedos encheram-se com seus seios, ela tirou a blusa, ainda de costas me deu a primeira uva, que passaram a alternar-se com os beijos. Beijava-lhe a nuca e mordia seus ombros, eram mais doces que as uvas. Com breves movimentos me deixou quase nu, só de meias, rimos e as tirei. Tirei também sua calca, sua calcinha. Senti o pulsar de seu sexo escorrer entre meus dedos e transamos de forma intensa ali mesmo, entre a geladeira e o fogão.

            Fomos para o sofá e ainda nus procuramos o calor de uma coberta. Caetano já era quieto, ela pôs a Marisa. Um breve cochilo agarrado ao seu corpo e acordei sentindo o calor de sua boca dando vida a todos os meus sentidos novamente, com a minha boca alcancei os pelos entre suas pernas. Então amamos mais: no sofá, do sofá para o chão, do chão para a poltrona, da poltrona para a mesa de centro, já cheia de cinzas do incenso e com a vela escra. A luz vinha do dia, completo pela janela. Acabamos novamente no chão com a coberta por cima, meu corpo encaixado por traz do corpo dela, movimentos suaves geravam gemidos curtos enquanto a minha mão acariciava o seu clitóris.

            Manhã de Domingo, quase meio dia. Acordei, nu, deitado no carpete, entre a mesa de jantar e o sofá, só. Passos firmes soando como um galope de alazão calcando botas finas, parecia um sonho, mas não, era a prima. “Oi sou a prima da Lácia, bom dia, ela tá no banho não se preocupe comigo, vou tomar o café e já estou saindo”. Não me preocupei, mas minhas roupas estavam ainda ao pé da geladeira. A prima, muito parecida com Lácia, mas exagerada no perfume, esquentava o café e fez uma cara meio assustada e inteira safada quando me viu nu a sua frente. “Desculpe você esta pisando na minha calca....posso tomar um gole?”. Ela não tirou o pé da minha calca e me serviu uma caneca. “Já tá doce” disse sorrindo e descendo os olhos. Também sorri, provei o café, muito doce e forte, sorri novamente.

            Entrei no banheiro ainda nu, com café em punho. Lácia cantava Caetano. Abri a cortina do boxe e vi as curvas de seu corpo moreno sendo lambidas pelo fluxo d’água. Parece nem ter sido surpreendida, agiu como se fizéssemos aquilo todas as manhãs há uns dez anos. Só sorriu quando eu lhe contei sobre o olhar da prima,  “Ela é meio encalhada, tarada, mas bem legal”, comentou. Tomou quase todo o meu café, beijou minha boca e pediu para esfregar minhas costas. Esfregou todo o meu corpo, cada canto, cada esquina, quando fui fazer o mesmo disse que já estava limpa.  

            Ela entrou no quarto, eu me vesti na sala. Sugeri irmos comer alguma coisa, ela disse que tinha que dar um jeito para arrumar algum lugar que tivesse o canal Multishow, iria passar a filmagem de uma peça de teatro, em uma hora, e ela não podia perder. “Então vamos para o meu apartamento e pedimos alguma coisa” , “Lá tem Multishow? ... Show!”. De taxi cruzamos a cidade e fomos.

            Lácia sumiu da minha vida da forma que entrou, inesperadamente e cheia de cheiros. Sumiu deixando um rastro de mistério e a dolorosa presença de seu incenso doce nos cantos da minha casa e da minha alma. Assistimos a sua peça comendo sanduíches, batata frita e milk shake. Depois assistimos ao jogo São Paulo e Figueirense, ela disse que adorava futebol, eu sempre fui fanático pelo tricolor. O São Paulo perdeu de virada, dando adeus ao campeonato, mas poucas vezes senti tanto prazer durante um jogo de futebol. Nossas almas foram poupadas do Faustão para alegria de nossos corpos. Durante o fantástico pedimos uma pizza e ela vestida somente com a camisa tricolor trouxe a minha mente recordações do tempo de sítio com uma prima mais velha, que agora não cabe contar.

            Dormimos o sono dos justos, de justos amantes exaustos e felizes. A Segunda feira acordou cinza, como de costume. Eu, para meu espanto e tristeza, também como de costume, acordei só. Procurei nos cantos, um bilhete, um recado, qualquer coisa. Só encontrei seu cheiro, que vencia a pizza velha, e outros indícios de sua presença: a tampa caída sobre o vaso, duas taças de vinho sobre a mesa, um certo sorriso nas paredes suadas. Como entrou, saiu da minha vida. Lasciva: sensual e imoral. Sei onde mora, sei onde trabalha, mas, por enquanto, me contentarei com o seu cheiro e a lembrança doce e quente dessa noite de inverno.

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a menina abriu as pernas, sem maiores rodeios, deitou-se sobre o tapete, entre a mesinha de centro e o sofá, afastou a calcinha branca e versou: me chupa!

loira, qualquer coisa entre 19 e 22, boceta raspadinha, cara de rica, roupas de rica, jeito de rica. por que caralho escolheu aquele sujeito quase feio, quase pobre, quase advogado naquela terça feira quente e paulista está entre um dos grandes mistérios da intrigante alma feminina. talvez a pinga com cerveja, talvez os primeiros 10 dias sem sexo que tinha nos últimos 3 anos ou talvez a lua simplesmente cheia.

 

 

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alley entre Ormond Gate e Putney

 

qualquer boteco de qualquer alley entre Ormond Gate e Putney, numa brecha de tempo entre as 18 e as 5 da matina de um escuro inverno desses do norte, quando um encontra outro, ao acaso completo, depois de uns tantos anos de total silêncio. sabe-se apenas que um é bêbado, poeta e um tanto louco como são os bons poetas e os piores bêbado atua como burocrata de repartição nesse mundo e sente constante náuseas, outro é advogado criminal, ex-poeta e bêbado regular e isso basta

 

um diz:

só te aviso de um perigo poeta: mulheres. são seres maliciosos, se você as coloca num campo de futebol, é um pênalti a cada 4 minutos.

outro diz:

pois é, tai a beleza da coisa.....quer calmaria vai jogar golfe com os advogados

um diz:

ai é q você se engana meu poeta, a única diferença entre mulheres e o jogo de golf com advogados é a distancia dos buracos

outro diz:

onde eles estão mais longe?

um diz:

visualmente, no campo de golf.. metaforicamente, acho que nas mulheres

outro diz:

depende do tipo eu lhe digo, tal como existem os mini-golfes existem também as mini-mulheres, seja lá o que isso significa

outro continua:

mas me conta, tu continua morando com aquela loira, ou ela te chutou de vez?

um diz:

to morando no mini-mim, seja lá o q isso significa. mais precisamente ocupo o espaço do meu bolso esquerdo, porque o direito esta furado. A verdade é que casamento é igual coca cola mal fechada na geladeira: perde o gás rapidinho

outro diz:

captei, a verdade é que nós nos habitamos, tal jaula ou jardim, queira ou não , até a morte que chega logo

um diz:

chegaria ela se fosse pequena e ligeira, meu sábio.mas é grande como uma lâmpada pra um mosquito e nem dois mil guerrilheiros a fodendo por trás a fariam parar, com seus passos de montanha

outro diz:

atrai o pobre e depois o queima, a melhor coisa da vida é iogurte com granola, não adianta inventar

um diz:

ouvi dizer que uma vez a colocaram dentro de uma garrafa de vidro e ela escapou como fosse gás de Tonica, em poucos dias já não havia mais vestígios.. os vermes são os mais felizes. os vermes são os mais felizes nesse mundo: acabam sempre ficando com a ultima mordida

outro diz:

mas depois vem a garça, ou a rã e os abocanha....dizem que a vida é cíclica, eu não caio nessa, prefiro crer que essa porra terá fim, tipo abismos, ou vermes e pronto, que seja

um diz:

essa noite sonhei com o contorno de um corpo no chão, desses de homicídio, na mão do suspeito havia uma balão azul claro que ia escrito assim: not to be continued

outro diz:

talvez freud não creia, mas acho que o fato do balão ser azul revela a saudade que tu sente do mar do resto da sua vida

um diz:

já não tenho nem mais saudade de mim. virei o abismo e minhas costas doem como dentes de hipopótamo. fervi tomates frescos hoje pela manha. percebi que tenho fim triste como eles. preciso namorar uma gota. sugar seus seis seios de papoula e dormir numa vertigem de veludos. preciso roubar um trem cheio de mercadorias valiosas e focar num precipício. quero desenvolver matérias inorgânicas dentro de uma armário cheirando perfumes caros

outro diz:

namore uma gota, mas não seja orvalho meu velho, seja triste como são os tomates mas seja sagaz com os hipopótamos. desista do armário, dizem que sufocam. procure os bueiros: é pra lá que correm os desesperado (e são mais densos e mais sujos e mais vivos os seus perfumes)

um diz:

estou emburrecendo pelos tímpanos meu poeta, cada dia que vivo é uma guerra entre o sitio do pica pau amarelo e os peitos da menina  rica dos barrados no baile

outro diz:

meta náuseas entre as pernas e caminhe rua abaixo, encontre três verdades entre os mendigos que dormem e as putas que rodam, deixe os pedintes lhe estupraram catarros e tenha febre, então sinta vastidão perturbando suas entranhas. tome conhaque, peça perdão aos deuses, desista de tudo e se abandone: não há solução meu caro...procure um jardim desesperadamente, cague na primeira rosa que cheirar beleza, tenha mais febre, ouça caetano e meta bala, meta no cu de uma menina rica e procure perdão com um padre desses

um diz:

comecei meu livro. vai chamar-se : O GRAMPEADOR DE CARTAS

outro diz:

barman,  a shot of jack and the check please.

 

 

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Tinha um tédio enorme da vida. Não gostava de acordar, nem nas manhãs virgens da primavera. Não gostava pois sabia que ia ter que pegar o ônibus no meio de tanta gente que não conhecia, andar em silêncio por ruas largas e passar o dia ouvindo a vida dos outros enquanto tomava nota sobre o tédio que sentia da sua. Sentava a manhã toda para ouvir discursos sobre o cenário econômico do mundo, as tendências e os prováveis caminhos do mercado, os investimentos mais oportunos, a história da sociedade capitalista. Invejava Marx, mas o tédio lhe dominava ao pensar em Stalin e até em Guevara. Tinha um tédio enorme da vida. O melhor de seu dia era a hora do banho, quando masturbava-se ouvindo o canto da vizinha. Depois fazia a barba com a agua bem quente e bem pouco creme, quase não tinha barba, mas raspava cada novo pelo todo santo dia, após o banho. Tinha certeza que o fim de sua vida seria dado com um grande salto do topo dos 15 andares do seu prédio. Era um suicida nato, e isso lhe trazia grande esperança: mal podia esperar pelo dia em que finalmente rasparia todos os pelos de seu corpo, incluindo ai sobrancelha e cílios, e planaria, pelado, ao encontro de sua morte. Morava só, vindo do interior, poucos amigos. O telefone tocava somente umas três, quatro vezes por dia. Pouco depois do almoço alguém tentando vender um acesso mais rápido e seguro para a internet, depois um pedido de doação para a casa paulista das crianças com câncer ou para o orfanato da vila saúde. Lá pelo meio da tarde algum engano e umas nove e pouco, assim que acabava a primeira parte da novela, ligava sua mãe, o papo durava precisamente até a novela reaparecer então ela inventava outra desculpa: sua irmã esta chorando, seu pai esta me chamando, a água ferveu. Tinha um tédio enorme da vida.

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12 BECOS

 

 

Tenho andado em certos becos escuros

Tanta coisa

Alguns ratos cinzas e peludos roendo bêbados esquecidos

Alguns loucos

Outros tristes

Poucos que realmente existem.

 

Havia também uma lua grande, meio laranja, que parecia querer se confessar para mim. Deviam ser sete estrelas, não mais que isso, um pássaro chato, insistente, repetitivo, ou seria um grilo? Carros, por certo haviam carros, daqueles antigos ingleses bem polidos e com ruivas nuas guiando pelo lado errado da rua. Ruivas, ruas, ratos, que mais? Um cisco no olho esquerdo, uma dor que tinha na infância nos dois joelhos, a lua chata querendo se confessar, sussurrando ventos de outros tempos na minha orelha, eram duas da matina, madrugada plena de pavor e prazer, confuso, estava apenas confuso. Apenas? Não, não ainda, tava calor demais para ser madrugada, eu suava entre ratos e ruivas cada vez mais numerosos, ruivas saindo dos carros ingleses e ratos saindo do corpo de bêbados. As ruivas eram todas iguais, cabelo longo e fino escorrendo pelas costas, por trás das orelhas, olhos ruivos também, boca fácil, pele bem clara, vestiam apenas um salto alto que as faziam ainda maiores. Suavam também: um suor doce. Os ratos não, esses eram pequenos e tentavam entrar pelos meus buracos: orelha, nariz, boca, olhos. Peludos e pequenos, cinza e com cheiro de azia, eram velozes, bando de filhas da puta, curiosos, iam roendo casas, carros, ruas, todas as paredes do sonho. As grandes eram inteira ruivas, uma bucetinha rala e de cheiro ainda mais doce, uma flor ruiva. Tinham as unhas pintadas de ruivo também e tatuagens de flores vermelhas espalhadas pelos corpos sardentos. Já os ratos, nojentos.

A lua ainda queria, insistia, dizendo-se loira e virgem, declamando falsas promessas. Puta como qualquer lua de uma madrugada bêbada, linda e fácil. Mas as ruivas eram tantas e passaram a me olhar com desejo, vinham com aquele par de seios pequenos, do tamanho de uma boca, duros como uma fruta madura, nuas como feitas por Deus, passavam me tocando e beijando minha boca, logo iam e então vinha outra e mais outra e outra. Rasgaram minhas roupas e jogaram-me sobre o capo liso e brilhante de um velho carro, passavam as mão no meu corpo, roçavam os pêlos ruivos de suas flores na minha cara, na minha boca, beijavam meus cantos, diziam palavras de amor e sexo em meu ouvido e iam, abrindo espaço para outras que me amavam e iam, que encaixavam o corpo no meu, sugavam o calor da minha pele, o volume do meu corpo e desapareciam assobiando valsas de prazer. A lua abria as pernas num céu sem estrelas sobre meus olhos, entre um beijo e outro das ruivas, via os caminhos da lua que estendia-se no céu se tocando e gemendo seu prazer com uivos de brisa e incenso de virgem. As ruivas ficaram loucas e me atacaram todas com fúria de prazer, cada milímetro do meu corpo era consumido pela fome de uma ruiva e era encharcado pelo mel de seu gozo. A lua, linda, loira e nua também gozava em estrelas azuis. Eu ia explodir o meu prazer na boca de umas seis ruivas, quando senti a primeira mordida do rato. Os ratos tinham sumido, aqueles milhares de ratos, bando de filhas da puta, tinham sumido logo que as ruivas tiraram a minha roupa e a lua começou sua masturbação celeste. Mordeu o meu rim, pela parte de dentro e meu corpo pareceu girar para dentro, a outra mordida foi na parte interna do olho esquerdo e então tudo ficou vermelho e não era mais o vermelho do sexo ruivo me encharcando de prazer era o vermelho do sangue sangrando pelas mordidas de centenas de ratos que disputavam a minha carne por dentro. Ratos do caralho, filhas duma puta, não precisava de ratos numa hora daquela. As ruivas devem Ter pensado que as contrações eram de prazer e não desistiam do meu corpo, que agora era só contradição de sentidos: prazeres ruivos na parte de fora e horror de ratos na parte de dentro. Dor e gozo, socorro, socorro!!!!!

TOC! TOC! TOC!    

- Tem alguém batendo na porta

Disse a menina na minha cama

Era loira com uns olhos pequenos, uma cintura fina e branca e seios redondos, fartos e empinados. Disse e se rendeu ao sono sem medo, linda, ainda com a cabeça sobre meu peito. Cheiro de cigarro. Dormia nua, com uns pelinhos finos e lisos brilhando o reflexo da vela dourada que dançava aos prazeres da brisa. Era primavera, mas num dia que merecia ser inverno, uma manhã fria, ainda escura e densa, manhã de Domingo, ressaca de vinho rondando a cabeça.

TOC! TOC! TOC!

- Não vai abrir?

Disse apertando meu peito com uma mão pequena de unhas bem feitas e brancas, virou sem abrir os olhos e deitou a cabeça sobre o travesseiro.

Levantei, fortes dores no joelho, a cabeça pesada. Ela tinha umas costas lindas, longas tal veredas de um sertão sonhado e uma pequena tatuagem na nuca. Não lembrava seu nome.

 

Não havia vento, nem cheiro

Uma noite apenas

Cinza, como tantas outras

O amor que era só saudade vagava na lembrança, ou nem lá mais

Estava só

Como ainda estou

Só na alma, no peito

Enquanto o corpo era vivo tal o pulsar de uma floresta em noite de lua

Querendo vida

Querendo cor, dor

Querendo sentidos para se sentir útil

Já que a alma vagava morta, sonâmbula, por uma floresta de orquídeas leves

 

O fato é que aquela guria tinha algo no dançar de suas mãos, a musica tava muito alta e eu não ouvia porra do que falava, lia apenas suas mãos. E como gingavam no ar, gingavam entre a névoa de incenso, tabaco e maconha barata. Ela me via também, parecia não ligar, só parecia. Tinha uns olhos curtos e um corpo para muitas noites. Loira de pai e mãe, boca triste cheia de dentes mais claros que bunda de bebê albino.

A casa era pequena demais para tanta gente, conhecia, de vista, o irmão de uma amiga da aniversariante. Essa era doida, cabelo verde, um braço mais colorido que gibi do Chico Bento, uns doze brincos em cada orelha e fazia questão de dar longos beijos na namorada, bem gostosa, alias. A cerveja tava boa: gelada e de graça. A música também agradava. Sábado a noite, sem nada no bolso além de duas camisinhas e um velho fumo solto.

A baga rolava de mão em mão, umas seis pessoas na roda, não conhecia ninguém, só olhava para a loira distante, do outro lado da roda que agora acendia a ponta com um isqueiro. Era bem novinha ela, quase queimou a boca, entre sorrisos li os seus lábios: “acabou” e jogou a ponta no chão da sala, com uns olhos de safada perdidos nos meus. Tirei o que tinha do bolso, já tava em pó, bem pouco e apesar de velho, ainda saboroso. Deitei sobre a cama de seda, embrulhei e passei a língua já cruzando o meio da roda em direção a loira: “Empresta o fogo”

“Deixa que eu acendo”, disse tomando o baseado da minha mão e passando a ponta da língua sobre a ponta do beck. Fumamos sozinhos, ignorando a roda que logo se desfez, o carinha que antes falava com ela ainda estava perto, sentado no braço do sofá. Falamos algo sobre um sonho que ela teve, assim logo de cara, um papo estranho sem muito sentido, além de nomes, cursos, idades e todo esse roteiro. Era irmã gêmea da dona da festa, gêmeas idênticas. Nunca houve gêmeas idênticas tão diferentes, uma toda pintada, rasgada e furada e outra uma loirinha com cara de filme antigo. O carinha de antes veio vindo, duas cervejas na mão: “vem tomar essa cerveja comigo”, “não agora eu vou dançar” e puxou a minha mão em direção a pista de dança que ficava na sala de estar sem móveis. Cruzamos corpos suados ao som de um Rap de guerra, nossas mãos atadas com forca e ela me puxando com determinação. Não paramos ali, seguimos até a escada, quase no topo onde tudo estava completamente escuro tinha um carinha sentado com uma mina, sugando seu pescoço e enfiando a mão calca a dentro.

A loirinha me guiava as escuras com total conhecimento do terreno, era um breu só onde devia ser o corredor, quando ela parou e me beijou na boca, num beijo longo e forte com gosto de maconha e canela e tocando minhas costas já por baixo da camisa. Entramos num quarto localizado no fim do corredor, havia um som de línguas ali. “Quem esta ai?” perguntou uma voz. A loira acendeu a luz e numa grande cama de um tradicional quarto de casal de uma família da classe média burguesa paulistana estavam estiradas, em um meia nove sem começo nem fim, a louquinha do cabelo verde e uma morena meio gorda. A luz apagou e nada mais foi dito, senti outro beijo e pensei que deveria vir mais nessas festinhas da universidade. O beijo foi descendo por todo o meu corpo, deixei ela pelada também e deitei com ela na cama, tava tudo muito escuro, breu completo, sabia que haviam outras duas mulheres na grande cama mas delas só se ouviam lambidas e sussurros curtos. Dei a camisinha na mão dela que em um só movimento pos em mim e sentou, senti aquele oceano quente e seu gemido de dor seguido por um de alívio, prazer então. Procurava com a mão os outro corpos e não achava nada, muita cerveja, muita maconha, essa porra dessa escuridão. Até que  numa troca de posição senti uma perna, segui os caminhos até as coxas quando um arranhão no me braço fez eu ver um flash de luz branca nos olhos, filha da puta. “Não me toca porra!!!”. Caralho, sujou, a magrinha do cabelo verde ficou puta da vida, acendeu o abajur e ia completar o xingamento quando a porta do quarto abriu e pudemos identificar o carinha de antes ainda segurando as duas cervejas, provavelmente vazias agora. A cena era a seguinte na grande cama: todos pelados, eu dentro da loirinha que estava de quatro com uma bundinha que agora revelava-se muito gostosa, a do cabelo verde ajoelhada com as mãos na cintura parecendo um muro pichado e uma morena gorda deitada com as pernas abertas. Ninguém disse nada, o cara fez uma cara de surpresa quase cômica, largou as latas no chão e deu o fora. A loira se desengatou de mim e ficou deitada sem reação, as outras já se vestiam e a morena foi saindo meio pelada meio puta reclamando alguma coisa. Então a pintada começou a rir e disse alguma coisa do tipo: “Puta merda se o papai soubesse dessa zona na cama dele!!” e completou, já de saída: “Você tá fodida agora né sua putinha”. Achei bem delicado, o clima ficou legal. A loirinha era simplesmente uma delicia, ali estendida de costas na minha frente, aquela tatoo de algum dizer oriental escorrendo de sua nuca, e eu estava louco demais para maiores considerações e engatei nela de novo. Com bombadas suaves que ela ia gostando cada vez mais perguntei: “quem era esse cara?”  “Meu namorado, nos brigamos hoje cedo”. “vamos lá para a minha casa”, tentei. Fomos.

 

TOC! TOC! TOC!

Abri a porta enrolado em uma toalha. Ventava lá fora, chovia, talvez. Raquel, minha vizinha, amante do meu primo, que dividia a casa comigo.

“Esqueci a chave de casa, não tem ninguém lá.” -  Raquel, ruiva. “Entra”, disse entre remelas e tonteiras.

Lembrei do sonho, lembrei dos ratos, senti a ressaca. Vinho barato.

“Quer um vinho, Raquel? O Rodrigo não esta, foi dormir na casa da namorada, trancou o quarto.”

Raquel era ruiva, cabelos curtos, mas ruiva. Um olho azul, meio triste, tava linda tomando vinho tinto e sentada no chão da minha sala sem móveis. O vinho não desceu, tomei uma cerveja. Contei o meu sonho. Ratos e ruivas. Ela riu

“Você já transou com uma ruiva?”

“Não sei, acho que já.”

“Se não lembra é porque nunca transou!!”

“Por que, boceta ruiva é mais cheirosa?”

Ela riu, por que serra que as ruivas ficam mais ruivas e mais bonitas quando riem?  esquivou os olhos, quando olhou de novo viu que eu mirava sua boca, fingiu não perceber, mudou a posição, encostando na parede. Disse que teve uma noite de merda, festa louca, gente estranha e agora sem chave para entrar em casa. “E você? sumiu cedo da festa!!”

  • Me dei bem com uma loirinha....

  • Ela tá ai?

  • Tá, chapada.

  • Bonita?

  • Uma delícia, meio novinha mas bem safada.

  • Posso ver?

  • Ahn!?!?!

  • Deixa eu ver ela dormindo

  • Por que?

  • Eu gosto

  • De mulher?

  • Uhunm.

  • Jura! E continua gostando de homem também?

  • Uhunm, principalmente os dois juntos.

  • Que noite louca!

Safada, foi a primeira palavra que me veio a cabeça. Terminei a cerveja em um gole e não sei se foi isso ou se foram as palavras da ruiva que acabou com minha ressaca e qualquer sensação de ratos devorando meus órgãos.

- Vamos lá. Eu disse

Entramos no quarto que já ganhava alguma luz da aurora, bem pouca ainda. A loira estava recolhida por baixo das cobertas, revelando apenas seus longos cabelos que cobriam a cama como ondas douradas em um oceano negro. Nem se mexeu. Raquel entrou e, cuidadosa, fechou a porta. Ficou olhando a loira por alguns instantes, tocou com a ponta dos dedos o seu cabelo. De costas para mim, ainda de pé e na beira da cama, tirou a blusa revelando sua pele clara, depois abaixou em um movimento único a calca e a calcinha, ficando nua por completo. Aproximou-se, caminhando de costas, e encostou seu corpo no meu peito, com a mão fez cair a minha toalha e segurou o meu pinto. Agarrei seus seios por traz beijando sua nuca de leve, sentindo seu cheiro ruivo penetrar em minhas narinas, ela virou, sem me olhar nos olhos, beijou meu pescoço, meu peito, até ajoelhar-se e me engolir de forma suave. Me chupando de leve, lambendo primeiro só a cabeça e segurando meu saco com uma mão e a minha bunda com outra. Então sentou na beira da cama e abriu as pernas, dizendo, sem baixar o tom da voz: - Vem provar uma flor ruiva!! Só tive tempo de cair de boca, ela tinha um sexo de pêlos fartos com um cheiro doce como no meu sonho. A loira pareceu sentir o movimento, e virou, ainda sem abrir os olhos, o rosto para a nossa direção. Ela era linda, mais linda do que antes, são poucas, muito poucas as mulheres lindas pela manhã. Raquel afastou seu corpo de mim, claramente encantada pela beleza loira.

- Vou dar um beijo nela! Disse, sem esperar resposta.

Ficou de quatro me convidando a penetra-la, ajoelhei atras dela e entrei de leve.

Raquel tocou com um beijo os lábios da loira, que sorriu ainda em sonho. Então lambeu sua boca enquanto eu fazia movimentos leves agarrados ao seu quadril.

- Acorda menina, disse Raquel com uma voz quieta.

A loira abriu os olhos, cheios de sono, olhou para nós, agora ajoelhados e encaixados. Não exagero se disser que não vi a menor surpresa refletir em seus olhos, a única reação foi um sorriso leve que abriu em seus lábios e as palavras, ainda roucas pela noite: “que lindo”

A loira então ficou ali, nos olhando, nus, se amando. Raquel tinha uma bucetinha apertada, era gostoso penetra-la por trás sentindo minha barriga tocar suas costas enquanto minhas mãos exploravam seus seios. Com uma das mãos, a direita acredito, encontrei as fartas pétalas ruivas de sua flor, brinquei, de início apenas entre os pêlos e depois penetrei seu sexo também com o dedo.

  • Me da um beijo!!! – Raquel em súplicas para aloira

  • Onde?

  • Na minha boca!

A loira se pôs em joelho e ficou a frente da Raquel, agarrou o seu seio livre e com a outra mão agarrou a minha nuca. Elas deram um longo beijo, a Raquel eu não sei, mas a loira mantinha os olhos abertos penetrando em minha alma. Com a mão que brincava na rosa procurei a margarida, senti seus pêlos loiros umedecendo, sua respiração ficar ofegante. A loira largou-se de volta a cama, abriu as pernas como uma borboleta que decide voar, botou seu dedo de unhas brancas naquele ralo campo de trigo e suplicou, com uma voz quase extinta: - Alguém me chupe!!!

Raquel caiu de boca, depois fui eu. Com a língua com o pinto, com os dedos se confundindo entre o bronze e o ouro. A partir de então não havia mais divisão entre os três corpos, não sabia onde terminava o meu ser para começar o outro, os cheiros e os gostos se misturaram e passou a ser impossível saber o que se tinha na boca, na mão, no sexo.

Confesso que cheguei a plenitude do que pode haver de físico na relação com outro ser humano, gozei como um vulcão por todos os poros. Elas continuavam se explorando, quando fui buscar um pouco de ar.

Domingo cinza, a aurora veio e ninguém percebera. Tomei uma cerveja ouvindo os pássaros na varanda. Uma senhora gorda passou com dois cachorrinhos brancos, parecia uma santa, parecia uma enviada de Deus, uma mulher com o mundo dentro de seu corpo e com dois mensageiros dos anjos mijando nos postes e cheirando o cu um do outro.

  • Dia lindo hoje, hein madame?

  • Um pouco frio para ficar pelado na varanda, não acha meu filho?

  • Pouco sei eu da vida! Quer uma cerveja?

  • Você não tem vergonha?

  • Somos todos santos, minha senhora. Aceite uma cerveja, esta fantástica!

Acho que ela não ouviu a oferta, ou fingiu que não ouviu. Pouco importa. Vá com Deus. Voltei pro quarto e elas ainda se chupavam, num lindo meia nove feminino, meio ruivo, meio loiro. Se eu fosse um pintor queria tinta, se fosse um poeta queria um papel. – Alguém aceita um baseado?

Cruzei as pernas a beira da cama, uma seda, um pouco do fumo, um tanto seco mas ainda cheiroso, um pilo, uma piteira, uma tesourinha e fui picando aquela erva enquanto as meninas se exploravam. Não responderam a minha pergunta, estavam ocupadas se procurando. Como elas se encaixavam e riam. A erva já estava dixavada, ganhando corpo no fino pedaço de papel, quando a loirinha percebeu a minha existência. Seu simples olhar foi o suficiente para eu sentir o desejo invadir meu corpo. Acendi o baseado já no meio delas, transamos, fumamos. A manha seguia seu rumo janela a fora, lá dentro o mundo era outro, eram muitas as guerras, as disputas, as conquistas. Cedia para uma, explorava a outra, transitava entre cores de dois universos infinitos. Raquel se entregou ao sono, enquanto a loirinha cavalgou suave sobre mim por mais alguns momentos. Então deitou, virando as costas para o meu lado, abraçando a ruiva por trás, abracei uma ou outra, pouco importa, alguns movimentos: o gozo e a entrega a um sono profundo.

 

Voltei a ver becos, ainda mais escuros

Os ratos estavam mortos

Mortos também todos os outros homens

Um cheiro azedo e denso subia pelas paredes

O céu cagava

E os bueiros estavam entupidos

As ruivas já haviam partido

Eu estava perdido em minha própria cidade, caos

Silencio e caos

Quem me salvou foi um solo de violino, um som de tom grave e longo. Pisquei e vieram as brumas nórdicas, neve branca no topo eterno das montanhas, nuvens raras, volumosas e brancas contra um céu azul demais até para um sonho. Eu sabia voar, dizem que só as almas velhas sabem voar. Meu corpo estava cansado demais para me carregar, mesmo em sonho

Segui uma coroa de flores vermelhas que girava entre as brechas das montanhas dentuças, ela ia me levando por um labirinto de cores fosforescentes. Onde estou? Que zona toda é essa? Era tudo muito bonito: os vales, as cores. Uma pequena vila medieval estendia-se ao lado do leito de um rio que corria manso até o distante vale verde. Só precisava voar e voei até os braços de uma padeira jovem que cuidava de patos negros enquanto os pães ganhavam forma no forno e preenchiam o pequeno chalé de madeira com um cheiro fresco. Ela sorriu  e seu sorriso trouxe a imagem de minha avó , esse era apenas o meu modo de ver o sonho. Pode ser que tudo aquilo que sonhava fossem sinais petrificados de um futuro incerto, talvez signos alertando meus sentidos sobre os perigos que aprontaria o destino na próxima esquina. Qual que fosse o sinal, era um sonho bom, melhor que becos e bêbados e ratos roendo meu olho, melhor que uma lua prostituída num céu de núpcias negra, quase tão bom quanto ruivas abusando de meu corpo. Mas aquela vila nórdica, cravada num vale verde, no manto de um rio lento, nos braços de uma padeira dotada: um sonho bom.

O cheiro do pão saindo do forno lembrou da fome que sentia na vida, vez doer o vazio abismo no meu estômago. Acordei ainda flutuando.

Nem a ruiva, nem a loira. Estava só. Domingo é o dia mais triste que há, já tarde da tarde um frio de merda entrando pela porta aberta. O que me resta: uma ponta, duas latas de cerveja, um quinto de vinho tinto, quatro pedaços de pizza na geladeira, uma mistura de cheiros no lençol, muita morte na TV. Consumi tudo. Só não lembro a ordem, mas pouco importa.

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o alfaiate

O alfaiate, com as calças em barras por fazer, entrou correndo na sala de estar e desandou a gritar:

-   Ela fritou todos os ovos, madame, não sobrou nenhum, não sobrou nenhum!!!

A madame, estarrecida com a notícia, escarrou o licor que curtia em sua boca, esticou as juntas e erguendo-se bravejou:

  • Mas a puta merda, não disse que queria pintos! Sem ovos não há pintos, porra!

  • Madame a senhora se acalme, pelo amor de Deus. Eu disse, eu falei e repeti mas a Dna. Jurema, senhora sabe como ela é teimosa, a Dna. Jurema não deu ouvidos, pior deu de ombros. Ela disse que os cães estavam na dieta dos ovos e fez a fritada com mais de quinze, não teve jeito.

  • Mas a puta merda – madame já era madame há anos mas não renegava nem disfarçava sua origem simples e incrivelmente desbocada, aliás com a segurança que o dinheiro trás aumentará ainda mais o volume de seus xingamentos – chama já a Dna Jurema aqui que eu vou tirar o couro dessa mulher.

  • Sim senhora  - E sai o alfaiate em tropeços rumo à cozinha.

(panelas ecoam sobre o límpido azul de lejos lisos)

  • A madame me chamou?

  • Chamei sim. Dna Jurema me explica que porra é essa de dieta dos ovos, que merda que ce tá inventando hoje.?

  • Mas..... – Tentou Jurema

  • Espera que eu não acabei. Eu não disse, ou melhor eu não mandei que esperasse os pintos, mas a puta merda sou eu que mando aqui, sou eu que pago o seu salário, sou que pago sua comida, sou eu que pago até a porra da sua manicure

  • Mas..... – Tentou a empregada.

  • Porra deixa eu acabar de falar, caralho. Ontem, eu me lembro muito bem, chamei todo mundo aqui, disse pra todos vocês que o jardineiro comprou os ovos e que era pra esperar a porra dos pintos, parece que todo mundo entendeu, até a anta do alfaiate entendeu, mas então me aparece a sabichona da Dna. Jurema que inventa uma porra de dieta dos ovos pros cachorros e me estraga tudo, mas a puta merda dna Jurema.....

  • Madame em primeiro lugar pinto a senhora só vai ter se tiver galinha, por que pode deixar os ovos ali em cima do marmore da pia a vida inteira que eles apodrecem mas de lá não sai pinto nenhum. Tem mais, madame, a galinha mais próxima deve de tar em Minas em alguma granja qualquer, então pra poupar sua frustração fiz logo uma bela duma fritada pros cachorro, conforme o doutor pediu há mais de uma mês se a senhora não tá lembrada. E têm mais ainda madame, o meu salário não é mais que a sua obrigação me pagar, a minha comida idem, afinal de contas eu já limpei a bunda de tudo que é filho que já saiu do meio dessas suas pernas mancas.

O alfaiate, sem motivo aparente, tirou a gravata e amarrou na testa.

A madame, com olhos cheios d´água, segurou a mão de Dna Jurema, e disse:

  • Dna Jurema, minha cara, minha querida. Desculpe, sabe que você tem razão só há pinto se houver galinha, certa esta você de Ter feito esta fritada para os cães, mas a sua petulância lhe custou a manicure, esta cancelada.

  • Madame, mas a manicure não é necessidade é pura vaidade.

  • É verdade, é verdade -  Reconheceu madame.

 

 

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Mar largo

 

Por um mar largo, infinito, numa noite sem vento, sem lua, sem onda. O homem apenas, o mar apenas, estrelas: muitas. E uma saudade que não cabia no peito, nem no mar, nem no céu. A solidão é mais sozinha quando se esta preenchido pela falta, pela lembrança daquilo que foi e já não pode: por distância, por morte, por medo - pouco importa. Havia uma certa lentidão no correr das horas, por ser noite, por ser sem lua e por ser sozinho. O tempo era lerdo para passar. Havia um vinho, também. E esse enganava a percepção do espaço, mas não do tempo. Embriagava. E por ser sozinho, com vinho, noite, mar e sem lua, sem pressa, sem festa, sem culpa, o homem pensava em nada. Nem na falta, nem na esperança. Atingia, ludibriado pela imensidão do cálice e pelo abismo da tristeza, aquilo que saddhus indianos ficam a tentar, na beira do ganges,  por toda uma vida: a ausência de pensamento. O homem meditava, mergulhado em sua essência, percebia o sentido , se não do mundo ou da vida, pelo menos das estrelas que lhe cobriam o teto, do mar, da própria língua que fervia pelo tinto do vinho e da raiz de sua saudade. Tudo isso, em comunhão, explicava o que era, para quê era. Chorou. Chorou duas lágrimas salgadas como o mar, mas que viraram estrelas no momento em que rolaram, por serem brancas, puras, por serem profundas e verdadeiras. Então fechou os olhos e viu o seu mundo interno rodar para dentro de seu corpo, viu as matas de seus sonhos, os rios de seu destino, as cachoeiras de seus credos, as aves de sua inocência e as flores de suas emoções trabalhando para a sua vida. Viu cada uma de suas células, suas veias bombando sangue para seus órgãos. Conversou com seus membros e com aquilo que achou ser sua alma. Percorreu a floresta de seus medos, as cataratas de seus desejos. Visualizou o oceano de seu amor, e percebeu que a barca de sua amada planava como o seu veleiro branco, mas não por aquele mar largo, infinito, numa noite sem vento, sem lua, sem onda, e sim por uma lagoa envolta por tormentas, uma lagoa no meio de um deserto, cercada por nada, distante das cores, mas com um pequeno córrego, ainda corrente, cuja foz gozava devolta ao oceano azul de seu amor. Chorou mais, mais estrelas nasceram. A garrafa secou, e outras. E mais outras. Então abriu os olhos e o tempo, antes lerdo, pegajoso, escorrera toda sua madrugada escura no intervalo de um piscar, trazendo para o canto do céu um pingo de aurora. A aurora lembrou os olhos da amada e a dor de sua ausência já não mais lhe trazia câncer ao corpo e sim fogo para resgatá-la, toma-la de volta, traze-la aos braços e aos beijos. Não se sabe se foi o vento, o sol, o mar ou os punhos do homem que viraram a barca, apontando proa para o pedaço de alma que lhe faltava. Uma vez na direção certa a nau de sua vida, empurrada pela brisa, conduzida pelas águas, iluminada pelo astro e encorajada pelo seu desejo galgou cada milha até fazer ferro eterno na calma baía do amor do resto de sua vida.               

 

 

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Três contos de Reis

 

 

Delas

 

            A hora já era tarde: mais de meia-noite. A casa, de dia sempre cheia de cheiros e vozes, era quieta. Deveria entrar em total silêncio, o menor barulho acordaria o Puddle, que trataria de acordar todos os habitantes daquele apartamento. Todas fêmeas, menos o pudlle e ele. Nádia era a mãe, Cleide a empregada, mais quatro irmãs: Cristina, 18; Marta, 20; Sabrina, 23 e Ana, 25. Júnior tinha 17, mas pegava sempre o carro da Sabrina ou da mãe e ia até o clube, o bar, cinema, casa do Caio, da Priscila. Um dia, logo na primeira vez que pegou o carro da mãe, foi no Drive In com a Priscila, no dia seguinte Dna Nádia comentou que sentiu um cheiro estranho no carro e perguntou se o filho estava fumando maconha. “Magina mãe, foi uma amiga da Pri que inventou de fumar um cigarro de cravo” esquivou-se. A mãe era uma santa, o pai, morto. Para Júnior o pai era um sujeito de bigode com a cara grande, mais presente em fotos do que em memórias, a única lembrança real que tinha do pai despertava quando ele abria a segunda gaveta da estante da sala e o cheiro cru e pesado dos charutos subia-lhe às narinas. Contam sempre muitos casos de meninos que crescem cercados apenas por mulheres e acabam por se tornar afeminados, não era o caso de Júnior. Ele adorava mulher.

            Com o indicador tateou o buraco, sentiu a ponta encaixar e com um movimento suave empurrou até o fundo. Decidido, girou a chave e abriu a porta precisamente até o ponto que ela iniciaria o ranger de suas dobradiças. Entrou, fechou-a com cuidado, apesar do frio tirou o tênis, não precisou ascender a luz pois sabia de cor o caminho até a cozinha. Estava morto de fome, tateou os passos até a geladeira, ali sentiu algo encharcar sua meia, um liquido morno preencheu o espaço entre seus dedos. ‘’Será que a geladeira esta vazando?”. A luz fria revelou um líquido amarelo e espesso: “Cachorro filha da puta!!!”.

            Comeu com calma: o resto de uma massa, fria mesma; um pedaço de torta; outro de bolo. Enquanto comia lembrava do corpo de Priscila espalhado pela cama enorme dos pais dela, a lembrança lhe fazia rir: “Quando que o babaca do Dr. Jorge iria imaginar que eu como a filha dele naquela cama, agora ele deve tá lá roncando ou fudendo a escrota da mulher”. Esse ultimo pensamento causou-lhe um enjôo, talvez por pensar na mulher gorda do Dr. Jorge, a mãe da Priscila. “Nem todas as meninas ficam iguais às mães” desconversou seus medos. Priscila era linda: pele branca e fina, magra, mas já com corpo de mulher, olhos grandes, cheiro doce, mãos curiosas. Tinham a mesma idade, eram da mesma classe. Priscila era a segunda garota que Júnior desvirginará da escola, a quarta com quem transava, mas era especial, a primeira que não mexeu somente com os instintos de um jovem macho. Toda vez que olhava em seus olhos, Júnior lembrava da mistura de medo, vontade, dor e prazer que viu naquele olhar enquanto sentia o pulsar quente de todo o seu corpo durante a primeira transa, no chão da sala da casa do Caio. Muito mais especial que os gritos sufocados da Daniela quando eles transaram no banheiro do Playcenter ou o olhar meio vago, meio vesgo da Clarice durante os boquetes no almoxerifado da escola.

            Era boa pinta, é verdade, mas bom mesmo era seu papo, conhecia o universo feminino. Conhecia também o corpo, suas irmãs nunca fechavam as portas: ele via os contornos embaçados de seus corpos tomando banho enquanto escovava os dentes, dava opiniões sobre vestidos, penteados, perfumes.

            Com o estômago cheio não se preocupou com os pratos e suas migalhas, distraído pisou novamente, agora com o outro pé, na possa amarela, nem xingou, pegou um copo d’água, descalçou as meias e voltou para sala. Com a vista já mais acostumada à escuridão não teve problemas para passar pelas sala de jantar. A luz da lua cortava a escuridão, mas havia um som cortando o silêncio, um som preso, quase quieto. Vinha da sala de TV: um gemido, aquilo só podia ser um gemido de mulher. Júnior foi conferir, reconheceu logo, talvez pela sombra contornada pela luz da lua, talvez pela melodia da voz, ou o cheiro. Era a prima, lembrou que sua mãe comentara que ela viria dormir lá essa noite, a prima do interior. Júnior, de um canto escuro, encantava-se com a cena, aquele som logo excitou seus instintos. Podia ver um pouco do corpo com cor de lua, um pouco do cabelo, decifrava claramente entre as sombras as duas pernas dobradas e abertas, batendo como asas de uma borboleta, em sincronia com uma das mãos entre elas. Júnior imaginou o dedo dessa mão, explorando caminhos, mergulhando em um mundo quente e úmido, tocando os lábios e os pêlos daquela flor. Os gemidos, sempre curtos, não chegaram a um ápice, simplesmente cessaram.

            “Oi prima!’’ ele sussurrou, meio que por reflexo, a poucos palmos de sua cama improvisada. Ela deixou escapar um susto seco, o cachorro latiu uma única vez, ele pôs a mão na boca dela. Olharam-se fundo por alguns segundos sem nem respirar, sorriam risos calados. ‘’Dormiu de novo’’ ela disse segurando a mão dele, ‘’Você estava me olhando?’’, ‘’ Você estava linda’’ , ‘’Esta cada vez com mais voz de homem......posso usar seu dedo?”. Ele sorriu, ela escorreu a mão dele por entre seu corpo nu e a coberta, seus pêlos estavam ralos e úmidos, sua boceta era quente e parecia uma pequena concha que guarda todo o oceano. Entrou todo debaixo da coberta, seguiu o caminho de seu braço com a língua lambendo o gosto da pele dela até sentir o oásis com seus lábios, beijou primeiro suave depois com forca, segurou o máximo possível e deixou sua língua mergulhar para dentro do corpo da prima. Lambeu com gosto, lambeu fundo, lambeu leve, feito um cão lambeu mais, mordeu com os lábios e com os dentes, brincou com o dedo e com a língua ao mesmo tempo, gostava daquele gosto de prazer escorrendo pelas coxas. O gemido dela ganhava forca e perigo, Júnior lembrou do cachorro, lembrou da mãe, lembrou da Priscila. ‘’Eu vou gritar’’ ela sussurrou. Ele parou, ficou em pé na cama, tirou a camiseta, tirou a calca, pegou uma camisinha do bolso, pôs, enfiou o pau, tapou a boca dela com forca e disse: vai, grita.

            Transaram num silêncio com cor de lua, suaram em risos e cochichos, lembraram de outras luas com o cheiro do mato do interior, outras noites, outros prazeres. Ela riu quando ele disse, ainda duro dentro dela, que estava namorando a sua futura esposa. Ele ficou sério, só foi rir quando ela perguntou, enquanto ele a penetrava de lado e por trás, porque seus pés estavam melados.

 

 

 

 

Do Riso

 

Palhaço, coberto em cor. Ator para risos estranhos. No RG: Roberto, nascido das entranhas de Maria. No palco: “Crianças, palmas para Palhaço Alegria”.

Abria-se o pano, na arena Alegria varria, assobiando a triste melodia de uma sinfonia de Antônio Carlos Jobim. Ao fim, também era assim, porém só, sem querubins, varria restos de lanche, copos, chicles, enfim.

Um pasmo cidadão acrescenta-se tinta, um grande chapelão, roupas longas em cor e temos o divertido trapalhão. Não era bom com as palavras, mas para que piada se a arte pode ser corpo e mais nada!?

Essa era a sua vida: nas noites de Sexta, Sábado e nas tardes de Domingo tinha qualquer dor esquecida, angustias perdidas, lágrimas recolhidas e era só Alegria. Fazia risos em pequenos e grandes. Idas e vindas. Noutros dias não, pasmo cidadão, cercado em solidão, vagava perdido em meio à multidão.

Tinha filhos, dois, sempre longe pela estrada. Tinha sonhos, quantos? Sempre trocados por quase nada. Quantos sonhos pode ter um homem chamado Alegria? A mulher já não era dele, só a saudade. Verdade, era amante da assistente do mágico: caso quase trágico perto das garras da leoa. Mulher loura, amante boa.

Outros amigos: tinha poucos, o único no qual confiava dava sinais de louco. Breves dias em cada porto, logo partia, marinheiro da fantasia: o palhaço Alegria. Era essa a sua vida.

           

 

De Paus

 

Sonha: as mãos dadas e os passos pelas ruas.

(Pode ser as escuras do centro mesmo, pode até ter aquela fina garoa de agosto; longe querer mostrar ou aparecer pra alguém, as mãos são puramente para firmeza do peito)

Então digo sobre as mãos: grandes, sonha, também fortes e com alguns pêlos negros na barriga dos dedos.

Os passos: líderes, os dele, seguidores, os dela.

E vão em noite torta, com paradas para um sorvete, um beijo, uma flor, um bingo talvez, outro beijo, agora mais safado. – Não, assim na rua não gosto. Sonha: pudor, gosto, sexo. Sonho.

É porque a lua insiste em querer lá fora e a novela castiga com beijos às nove.

Comove demais, a mim também, não não a novela. A saga dessa virgem feia, dessa gorda torta, morta ao desejos dos homens.

Levanta, menos terça, santa como a mãe do filho, veste-se de branco dos pés a tampa e sai rumo a sina.

Igreja, onde conta com a bênção pro sonho. (Só não conta da parte do beijo que, sempre que lembra, faz suar uma gota que nasce no queixo, escorre entre os peitos e entope o umbigo)

Encerrada a crendice, os dizeres, apegos e promessas, atravessa a praça e depara com desgraças que ajuda a tratar. Vem dor de ouvido, cadáver de homicídio, corte no rosto, gosto de morte, motorista sem sorte, ciclista apressado. - Foi o cão do vizinho, que tava enraivado. Quase cem pontos na perna. Como sempre: costura e interna.

De fim de semana, parece que a turma proclama: dias de folia, de morte, de alegria, de dor, de azia e vermelhidão. Quase certo, dobra o plantão, consola a mãe, consome café. – Tchau gente, boa sorte até amanhã. Sai. Vai segurando a bolsa apertada a pança, atravessa a praça, olha Jesus, na segunda travessa toma a condução, lotação de preferencia, finge inocência mas despe o motorista com os olhos ou fode, em sonhos, com algum passageiro, algum negro atento, sobre o acento do veículo em movimento. Sonha.

No bar da frente tem sempre ninguém: o velho de camisa quadrada e chapéu caindo no canto do bar, Neuza, outra gorda (mas longe de virgem), na mesa da Brahma jogando paciência e mascando chicle como uma vaca que rumina o listão, o Tica, ou será Márcio, nordestino poeta que vende rifas e conversa em língua própria e o próprio dono, ou ainda pior a mulher do dono, registrando lástimas. Duas cervejas em lata, uma Kaiser e uma Skol e pouco importa se chegava no fim da tarde, como de costume, em madrugada como quando dobrava o plantão ou na aurora como quando pegava o turno da Margareth que inventava alguma desculpa para poder ficar fodendo o pediatra do quinto andar em algum motel da Raposo. – A Kaiser é para o meu noivo. Dizia para si mesma e para o vento. Em sonho.

Quitinete a dentro desfazia-se primeiro dos sapatos brancos, da bata ou manto ou qualquer que seja o nome oficial da roupa de enfermeira: uniforme mesmo, acho. Ficava então em calcinha e sutiã com as banhas saltando lingerie a fora. Sentava na poltrona com os pés grossos envergando a mesinha e tomava a Kaiser em três goles. Glu, glu, glu. Gorda que era assistia a novela ou o teipe da novela, saboreando a Skol. Cristã que era rezava um pai nosso e com a chama da vela dançando na brisa, velava a alma da mãe morta desde o último inverno.

Inferno, definiu a sua vida no último teste da última edição de uma revista feminina. Dormia, pegava no sono e dormia até linhas acima, no parágrafo que termina com a palavra sina. Alias, sina: rima de feminina, de acima, de esquina e menina, alias rima de rima.

Menos terça, quando folgava.

Ah como eram boas as terças-feiras, fosse verão ou julho, um dia inteiro para viver o sonho. Sonha: as mãos dadas, firmes em nó, e os passos pelas ruas. Podia ainda ver todas as novelas. Pedir pizza em uma nova pizzaria, na esperança de um entregador que lhe olhasse com desejo. – Uma portuguesa com bastante cebola, duas latas de Kaiser e duas de Skol.

 

Qual não foi a minha surpresa, quando na última terça-feira, ante ontem alias, indo atras de uma loira simples, fui parar em um bar da moda, nada muito elegante, simples na verdade, desses de frente para faculdades e lá estava Glória, a gorda que aqui invento. Pois ela estava sentada, muito bem acompanhada por uma turma animada a falar alto e virar Bohemias. Parecia, inclusive, haver um sujeito, creio que estudante de direito, que olhava com olhos de tolo para as exageradas curvas da virgem. Não resisti a tamanha oportunidade e sentei-me ao balcão, observando suas falas e escutando suas gingas. Algo sobre o Caminho de Santiago e depois sobre o inevitável futebol, era disso que falavam quando alguém achou o baralho e o truco começou.

Sempre pensei que truco fosse um jogo de origem turca. Não sei ao certo por que. Então veio a minha segunda surpresa da noite quando o sujeito de óculos, o mesmo com olhar para as muitas pernas da gorda, disse que o jogo vem de um povo chamado etruscos que habitou a Itália antes dos tempos e mais ainda acrescentou o rapaz: as gírias, tão características do jogo, são uma miscelânea de idiomas. Zape soa italiano mesmo, espadilha é espanhol enquanto Manilha é castelhano. E não foi por falta de aviso que a Glória conheceu a desgraça naquela noite que, desde o jantar no Terraço Itália com a turma da formatura, era a mais importante de sua vida: quando abre a Dama a manilha é o Valete, alertou não uma, mas duas vezes algum sabichão.

Abriu a Dama. A Glória tinha dois Dois e um Rei. Fazia dupla com um cara meio chato que falava alto e cantava vantagem a cada vitória, mas até então estava com sorte e já era a terceira dupla que tentava tira-los do posto. A dupla adversária era formada pelo cara de óculos, estudante de direito e conhecedor dos costumes mundanos de povos extintos que podemos chamar de Gilmar e um outro, que podemos chamar de Outro mesmo pois não vejo razão para lhe criar nome ou qualquer outra ginastica.

Gilmar botou um Ás, que quase ganhou até Glória cobri-lo com um dos Dois. Então abriu com o outro Dois, que quase ganhou até o Outro cobri-lo com um Três. Então ele (o Outro) abriu com um Três, dando a deixa para Glória, que em sua cabeça em boêmia pensava que o seu Rei de paus era o desejado Zape, dizer, ou melhor gritar: TRUCO! Gilmar, que tinha em suas mãos o verdadeiro zape, sussurrou, tentando fazer uma voz sexy: SEIS! Glória: NOVE! Gilmar: ENTÃO MOSTRA! (frase esta que se repetiria incessantemente na mente da nossa heroína por muitas noites seguidas a essa durante sua siririca comedida, entre a Kaiser e a Skol). Glória sentiu o suor lhe brotar da axila e em algumas das curvas entre os pneus da barriga e seguiu seu instinto, seu desejo mais imediato: sentou-lhe a mão na testa, como é lei quando se tem o zape e como não é recomendado quando se esta levemente embriagada e a vítima usa óculos. Pois quebrou o óculos de Gilmar, rasgando-lhe o supercílio que sangrou até a emergência do hospital em que Glória trabalha.

Três pontos apenas.

- e a gorda nem tinha a porra do zape.

Ouviu alguém dizer, com voz bêbada, enquanto tentava pegar no sono.

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